sábado, 4 de junho de 2016

Segue o teu destino


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterônimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tradição Ocidental Materialista.

Tradição Ocidental Materialista. Somos amontoados de partículas, mas abaixo das partículas... não sei... mas deve ser material também (?). Deve ser material, ainda que eu saiba que atualmente só 4% do universo seja explicável com minha ciência. O Big Bang. Antes? Não sei... Ah não sei... Deve ser material também. Mas ó. Tem outros universos, com outras leis científicas diferentes das do nosso universo, mas elas só funcionam lá, aqui é material, os outros não. Mas é comprovado? Não, é uma reflexão que faço com minha cabeça fruto de um amontoado de partículas materiais que pensa que outros universos são também materiais com outras leis que o governam (lei não é uma metáfora advinda da sociedade humana? a natureza poderia ter suas recorrências ordenadas em umas "lei" como categoria de pensamento humano-social? Qual nome a natureza poderia se autoreferir para falar sobre seu funcionamento? Manoel de Barros? Oi? Opa, ser humano é natureza, mas pq projetar mais eu na natureza do que a natureza em mim?). Se há outros universos hipoteticamente, qual garantia que eles sejam materiais? E se eles se unificam com nosso universo, qual é a lei científica materialista que seria capaz de assegurar tal conectividade com universos regulados por outras leis. Se há unificação, qual lei não-materialista aplicada a outros universos que tem conectividade com nosso universo? Propor uma unificação não é algo meio monoteísta? Como um princípio uno que governo tudo? Mas não é pretensão demais dizer com base em 4% de 01 universo observável, sem falar dos outros trilhões existentes? Se a natureza é um amontoado de partículas e eu sou capaz de perceber isso eu tenho direito de manipulá-la de acordo com as necessidades humanas? Quais são as necessidades humanas? São materialistas, tipo, dinheiro? Então natureza materializada pode ser usada para fins materiais? E quando um amontoado de partículas pensa em possibilidades não materiais? O pensar é material? E pensar no não-material é material? E se o pensar não-material, no cérebro material, não querer o uso da natureza com fins materiais, pq não vê ela somente material? E se esse sugerir que não use a natureza de modo material e for ridicularizado por aquele que vê a natureza como material, e que conhece suas leis, e conhece até as leis desconhecidas? Conhece o desconhecido? E se a atitude diante do desconhecido for uma atitude sem a expectativa de que ele seja capaz de ser abarcado pelo meu pensamento? E se diante do desconhecido eu pensar que ele cabe na minha ciência, na minha religião? E se eu materializar o desconhecido antes de saber se ele é material, justamente por ser mistério? E se o desconhecido é índio, e se sua ciência não for material? Materializo o desconhecido para me relacionar com ele? Materializando-o alcanço seu ser? Materializando o desconhecido, o universo desconhecido, alcanço sua essência? Essência não é uma ideia humana? A natureza deve e tem que ter essência? Essência material não é ambíguo? Ciência, material, natureza e índio não são linguagem? A linguagem abarca o todo? A poesia? E se eu me relacionar com o mistério sem conceitos pré estabelecidos, esperando que ele me mostre o que é, mesmo que não seja material? E se pensar no desconhecido é me relacionar com ele, posso concebê-lo como habitando em mim? E se eu for feito dos meus mistérios profundos? E se o amor for mistério para mim? E se eu não for feito de partículas, mas de amor?








No ônibus 1

No ônibus 1

Buraco. Vazio. No vazio.
Desanimo. Sem força.
Perdido. Buscando sentido.
Não há respostas fora.
Não no cigarro.
Bukowski.
Bucólico.
Eis o caminho: consciência do vazio.
O que fazer?
Vazio finito, pois completa-se no fazer. 
Não fazer: vazio.
Escrita, mãos; trabalho sobre si.
Lapidar-se: esculpir si mesmo.
Tempo livre. Tempo livre com educação de si.
Paidéia.
Não perder-se: consciência.
O que fazer?
Preencher o vazio.
Caminha na busca solitária.
Qual palavra? Qual verbo?
Qual sentimento.
Mergulhar-se, sem medo de conhecer-se.
O conceito não foi esgotado.
O caminho não foi trilhado.
Erros, conjunto dos erros: experiência.
Tentar, caminho, sem busca do quê?
De não pensar, em não parar.
Buscar-se, nessa temporada no inferno.
Rimbaud.
Partilha, compartilhar.
Dor no peito, o que queres de mim?
O que queres de mim?
No transporte coletivo,
exercício de eternidade.
Cansaço, recuperar-se.
Re-cura. Curar-se de que enfermidade?
Existência. Existo. Penso. Sinto.
Todo conhecer que habita em mim.
Partilha.
Sem querer doutrinar.
Sem impor verdades.
Há verdade, a verdade reside no agora. Agora.
Ver-se aos olhos alheios.
Ver-se nos olhos alheios.
Prazeres efêmeros, desencadeiam.
Desencadeiam; encadeamentos.
De ideias, sentimentos.
Consciência de existir.
Dor de sentir, sentir.
Arte que não é posta à parte.
Mas é pintura. Autorretrato.
Criar. Criar-se para reduzir o caos,
e do caos, criar novos hábitos,
novas regularidades.
Mutação, rumo à transformação,
evolução, nova pele, novo ser,
novas escolhas, novas atitudes.
Respirar: viver.
Viver o ser humano que sou.
Criar o universo. De dentro da alma posta agora.
Escrita como forma de terapia.
Materializar-me em versos.
Versos. Verbo.
Do caos: o verbo.
Registrar-me.
Deleite. Deleite.
De me ver. De me sentir.
De me viver.
Diminui a intensidade.
Calma.
Papel e caneta: expressões do vazio habitado
pela potência criadora, caótica.
Vazio prenhe de caos. De criação.
Verbo: coerência, regularidade.
Consciência de si mesmo.
Universo.
Unir-versos.
Universos de sentido.
Futuro, sonho, desejo e o medo.
Medo das escolhas.
Os erros são, pois, formas.
Formar. Plasmar.
Plástico.
Escultura.
Métrica: impor regularidade ou a forma
mais elevada da forma da consciência?
Mostrar-me: compartilhar
da felicidade de descobrir-me
parte do universo.
Memórias que habitam em mim.
Do passado, novas expectativas:
Agora. Hoje. Agora.
Sem medo de mergulhar-se no caos:
não há vazio.
Falso vazio:
território múltiplo de potencialidades.
Goodbye Babylon.
Febre de sentir.
Caos em ebulição: inquietude.
Desassossego. Fernando Pessoa.
Criativo caos.
Criativo desassossego.
Potencialidade criadora.
Do caos: o verbo.
Desaceleração:
Ordem. Regularidade.
Órbita.
Sol.
Luz.
Vida.
Deus. Senti-lo.
Recriar-me me realiza.

Torna real existir.

domingo, 8 de maio de 2016

Por que as mentes mais brilhantes precisam de solidão - SILVIA DÍEZ


Por que as mentes mais brilhantes precisam de solidão

Entrar em contato consigo traz benefícios. Darwin recusava todos os convites para festas. E do isolamento nasceu o primeiro computador Apple

Segundo o professor Robert Lang, da Universidade de Nevada (Las Vegas), especialista em dinâmicas sociais, muitos de nós acabarão vivendo sozinhos em algum momento, porque a cada dia nos casamos mais tarde, a taxa de divórcio aumenta, e as pessoas vivem mais. A prosperidade também incentiva esse estilo de vida, escolhido na maioria dos casos voluntariamente, pelo luxo que representa. A jornalista Maruja Torres, em sua autobiografia, Mujer en Guerra (da editora Planeta España, não publicada em português), já se vangloriava do prazer que lhe dava cair na cama e dormir sozinha, com pernas e braços em X. A isso se soma a comodidade de dispor do sofá, poder trocar de canal sem ter que negociar, improvisar planos sem avisar nem dar explicações, andar pela casa de qualquer jeito, comer a qualquer hora…

Como se fosse pouco, o sociólogo Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York, autor do estudo GOING SOLO: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (ficando só: o extraordinário aumento e surpreendente apelo de viver sozinho, em tradução livre), está convencido de que viver só significa, também, desfrutar de relações com mais qualidade, já que a maioria dos solteiros vê claramente que a solidão é muito melhor que se sentir mal-acompanhado. Há até estudos que asseguram que a solidão facilita o desenvolvimento da empatia. Outra socióloga, Erin Cornwell, da Universidade Cornell, em Ítaca (Nova York), concluiu, depois de diversas análises, que pessoas com mais de 35 anos que moram sozinhas têm maior probabilidade de sair com amigos que as que vivem como casais. O mesmo acontece com as pessoas adultas que, embora vivendo sozinhas, têm uma rede social de amizades tão grande ou maior que a das pessoas da mesma idade que vivem acompanhadas. É a conclusão do estudo feito pelo sociólogo Benjamin Cornwell publicado na American Sociological Review.
A base da criatividade e da inovação

As pessoas são seres sociais, mas depois de passar o dia rodeadas de gente, de reunião em reunião, atentas às redes sociais e ao celular, hiperativas e hiperconectadas, a solidão oferece um espaço de repouso capaz de curar. Uma das conclusões mais surpreendentes é que a solidão é fundamental para a criatividade, a inovação e a boa liderança. Estudo realizado em 1994 por Mihaly Csikszentmihalyi (o grande psicólogo da felicidade) comprovou que os adolescentes que não aguentam a solidão são incapazes de desenvolver seu talento criativo.

Susan Cain, autora do livro Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking (silêncio: o poder dos introvertidos num mundo que não consegue parar de falar), cuja conferência na plataforma de ideias TED Talks é uma das favoritas de Bill Gates, defende ao extremo a riqueza criativa que surge da solidão e pede, pelo bem de todos, que se pratique a introversão. “Sempre me disseram que eu deveria ser mais aberta, embora eu sentisse que ser introvertida não era algo ruim. Durante anos fui a bares lotados, muitos introvertidos fazem isso, o que representa uma perda de criatividade e de liderança que nossa sociedade não pode se permitir. Temos a crença de que toda criatividade e produtividade vem de um lugar particularmente sociável. Só que a solidão é o ingrediente essencial da criatividade. Darwin fazia longas caminhadas pelo bosque e recusava enfaticamente convites para festas. Steve Wozniak inventou o primeiro computador Apple sentado sozinho em um cubículo na Hewlett Packard, onde então trabalhava. Solidão é importante. Para algumas pessoas, inclusive, é o ar que respiram.”

Cain lembra que quando estão rodeadas de gente, as pessoas se limitam a seguir as crenças dos outros, para não romper a dinâmica do grupo. A solidão, por sua vez, significa se abrir ao pensamento próprio e original. Reclama que as sociedades ocidentais privilegiam a pessoa ativa à contemplativa. E pede: “Parem a loucura do trabalho constante em equipe. Vão ao deserto para ter suas próprias revelações”.

A conquista da liberdade

“Só quando estou sozinha me sinto totalmente livre. Reencontro-me comigo mesma e isso é agradável e reparador. É certo que, por inércia, quanto menos só se está, mais difícil é ficá-lo. Mesmo assim, em uma sociedade que obriga a ser enormemente dependente do que é externo, os espaços de solidão representam a única possibilidade se fazer contato novamente consigo. É um movimento de contração necessário para recuperar o equilíbrio”, diz Mireia Darder, autora do livro Nascidas para o Prazer (Ed. Rigden, não publicado em português).

Também o grande filósofo do momento, Byung-Chul Han, autor de A Sociedade do Cansaço (Ed. Relogio D’Agua, de Portugal), defende a necessidade de recuperar nossa capacidade contemplativa para compensar nossa hiperatividade destrutiva. Segundo esse autor, somente tolerando o tédio e o vácuo seremos capazes de desenvolver algo novo e de nos desintoxicarmos de um mundo cheio de estímulos e de sobrecarga informativa. Byung-Chul Han preza as palavras de Catão: “Esquecemos que ninguém está mais ativo do que quando não faz nada, nunca está menos sozinho do que quando está consigo mesmo”.

Autoconsciência e análise interior

“Para mim a solidão representa a oportunidade de revisar nosso gerenciamento, de projetar o futuro e avaliar a qualidade dos vínculos que construímos. É um espaço para executar uma auditoria existencial e perguntar o que é essencial para nós, além das exigências do ambiente social”, diz o filósofo Francesc Torralba, autor de A Arte de Ficar Só (Ed. Milenio) e diretor da cátedra Ethos da Universidade Ramon Llull. Na solidão deixamos esse espaço em branco para ouvir sem interferências o que sentimos e precisamos. “A solidão nos dá medo porque com ela caem todas as máscaras. Vivemos sempre mantendo as aparências, em busca de reconhecimento, mas raramente tiramos tempo para olhar para dentro”, diz Torralba.

Na verdade, a solidão desperta o medo porque costuma ser associada ao vazio e à tristeza, especialmente quando é postergada longamente por uma atividade frenética e anestesiante. Para Mireia Darder, é bom enfrentar esse momento tendo em mente que a tristeza resulta simplesmente do fato de se soltar depois de tanta tensão e de ter feito um esforço enorme para aparentar força e suportar a pressão frente aos que nos cercam. “Não se pode esquecer que para ser realmente independente é preciso aprender a passar pela solidão. O amor não é o contrário da solidão, e sim a solidão compartilhada”, diz Darder.


Em nossa sociedade, a inatividade —que surge com frequência da solidão— é temida e desperta a culpa. Fomos preparados para a ação e para fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas é quando estamos sozinhos que podemos refletir sobre o que fazemos e como o fazemos. O escritor Irvin Yalom, titular de Psiquiatria na Universidade de Stanford, confessava que desde que tinha consciência se sentia “assustado pelos espaços vazios” de seu eu interior. “E minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de outras pessoas. De fato detesto os que me privam da solidão e além disso não me fazem companhia.” Algo que, segundo Francesc Torralba, é muito frequente: “Embora estejamos cercados de gente e de formas de comunicação, há um alto grau de isolamento. Não existe sensação pior de solidão que aquela que se experimenta ao estar em casal ou com gente”.

AS 5 CHAVES PARA DESFRUTAR DA SOLIDÃO 

1. Você é sua melhor companhia. A premissa básica é mudar a crença de que quem está acompanhado está melhor.


2. Uma oportunidade para nos conhecermos melhor e descobrir nosso rico mundo interior.


3. Em vez de se torturar, é preciso aproveitar a solidão para ler, pintar ou praticar esporte.


4. Escrever um diário. Ajuda a expressar sentimentos e a contemplar-se com mais conhecimento e carinho.


5. Como indica o psicólogo Javier Urra, com a solidão recuperamos “o gosto pelo silêncio e pelo domínio do tempo”.


Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/29/ciencia/1422546931_773159.html

domingo, 10 de abril de 2016

Fluescência: As 4 Leis Espirituais Ensinadas na Índia.

Fluescência: As 4 Leis Espirituais Ensinadas na Índia.: 1. "A pessoa que vem é a pessoa certa." Significa que ninguém está em nossa vida por acaso. Todas as pessoas ao nosso red...

Os 10 ladrões de sua energia, segundo Dalai Lama

Tibetan spiritual leader the Dalai Lama greets his followers at the Buddhist cultural school in Salugara on the outskirts of Siliguri on March 28, 2013. The Dalai Lama expressed his sorrow for the self immolation protests going on in Tibet while speaking to journalists on his second day of a three day visit in Salugara, in the eastern Indian state of West Bengal after an inauguration ceremony of a 130 foot Lord Buddha statue at Buddha Park. AFP PHOTO/Diptendu DUTTA (Photo credit should read DIPTENDU DUTTA/AFP/Getty Images)


Todos nós temos designado uma carga de energia, a qual devemos aprender a utilizar corretamente e não desperdiça-la. As energias nos permitem trabalhar com motivação, nos dão pensamentos positivos para enfrentar as situações do dia a dia e permitem aproveitar ao máximo todas as oportunidades que nos são apresentadas. Somente nós temos o poder de dominar nossas energias e ter acesso a elas para usá-las em nossos dias. No entanto, existem alguns agentes externos e internos que podem chegar a interferir em nossos níveis de energia, provocando uma redução em nossa motivação, nosso humor e nossa produtividade.

As energias são chaves para alcançar o êxito e superar cada um dos obstáculos que nos são apresentados no caminho. Todos podem renovar todos os dias essas energias e aproveita-las ao máximo para vir a tona nossas qualidades, nossos talentos e tudo o que nos permite descartar como pessoas. Levando em consideração que cada individuo está dotado de energia, e que isto é a chave para seu desenvolvimento pessoal e profissional, o grande líder espiritual Dalai Lama definiu os “10 ladrões da energia” que todos devem conhecer para conseguir o domínio das energias e evitar que hajam interferências que nos impeçam de aproveita-las.

Pessoas negativas podem consumir sua energia

•“Deixe ir as pessoas que somente chegam para compartilhar queixas, problemas, histórias desastrosas, medo e julgamentos dos demais. Se alguém busca uma lixeira para deixar seu lixo, não deixe que seja a sua mente”.

Todos nós temos a capacidade de distinguir quais são as pessoas que trazem coisas positivas para nossa vida e quais são aquelas que querem nos deter e impedir nossa vida.

Pague suas contas a tempo

Não há nada melhor para nossa tranquilidade do que saber que não devemos nada a ninguém e que ninguém nos deve.

•“Pague suas contas a tempo. Ao mesmo tempo cobre a quem te deve ou escolha deixa-lo ir, se já for impossível cobrar”.

Ser responsável com as dívidas nos ajuda a ficar tranquilos ante as demais pessoas e com nós mesmos. É melhor fazer tudo o que for possível para se libertar das dívidas e não ter que se esconder ou ficar com vergonha por não tê-las pagado.

Cumpra suas promessas

•“Se não cumpriu suas promessas, se pergunte por que tem resistência. Sempre tem direito a mudar de opinião, a se desculpar, a compensar, a renegociar e a oferecer alternativa ante uma promessa não cumprida. Ainda não como de costume. A forma mais fácil de evitar o não cumprir com algo que não quer fazer, é dizer NÃO desde o princípio”.

As promessas por menores que sejam podem ter um valor muito significativo para as pessoas as quais fizemos a promessa. Cumprir com as promessas nos faz pessoas melhores tanto a nível pessoal como a nível profissional.

Delegue aquilo que não quer fazer

•“Elimine onde é possível e delegue aquelas tarefas que não prefere fazer e dedique seu tempo a fazer as coisas que gosta”.

Não se trata de escapar de nossas responsabilidades, mas sim de ter consciência de que em certos casos o melhor é passar o trabalho para alguém que pode fazê-lo melhor ou que pode tomar seu lugar quando não se sente nas melhores condições de realizá-lo. Isto nos lembra de que é importante realizar as coisas que são verdadeiramente significativas em nossas vidas.

Descansa e aja

•“Se dê permissão para descansar se estiver em um momento no qual necessita e se dê permissão para agir se estiver em um momento de oportunidade”.

Tanto a natureza como nossa vida possui diferentes ritmos no dia a dia e cada um de nós deve saber como agir ante isso. Muitas vezes não parar quando necessitamos pode ser um grande erro, e mesmo assim, não agir quando podemos, pode gerar futuros arrependimentos.

Coloque, recolha e organize

•“Tire, arrume e organize, nada te toma mais energia que um espaço desordenado e cheio de coisas do passado que já não precisa”.

Desde as coisas físicas até as espirituais, é muito importante botar aquilo que não precisamos para trás, deixar pra trás tudo o que seja passado e pegar somente aquelas coisas que nos permitem nos organizar para viver bem o presente e cumprir nossos Sonhos futuros.

Cuide de sua saúde

•“Dê prioridade a sua Saúde, sem a maquinaria de seu corpo trabalhando ao máximo, não pode fazer muito. Tire alguns momentos para descansar”.

De nada nos serve ter o melhor trabalho, muito dinheiro e os melhores bens, se não gozamos de boa saúde e não cuidamos de nosso corpo. Para desfrutar da vida com as melhores energias, devemos dedicar um merecido tempo a nosso corpo para desintoxica-lo, meditar, nos alimentar bem, fazer exercícios, consultar um médico e fazer todo o necessário para estar bem de saúde.

Enfrente as situações difíceis

•“Enfrente as situações tóxicas que está tolerando, desde resgatar um amigo ou um familiar, até tolerar ações negativas de um companheiro ou um grupo. Tome a ação necessária”.

Enfrentar as situações é a maneira mais saudável de assumir as coisas e não deixar que se convertam em algo pior. É importante analisar e decidir a tempo, já que postergar ou ignorar as coisas pode gerar Estresse, dificuldade para se focar e problemas mais difíceis de solucionar.

Aceita

•“Aceite. Não é resignação, mas nada te faz perder mais energia que resistir e brigar contra uma situação que não pode mudar”.

Ainda que muitos acreditem que nada é impossível e que a esperança é a última que morre, em certos casos, a vida nos põe ante situações nas quais devemos aceitar que não podemos mudar as coisas e que a única forma será aceitar. Aceitar não quer dizer que devamos parar de lutar, quando aceitamos que não podemos mudar algo, também temos a possibilidade de mudar o plano e buscar novas oportunidades.

Perdoa

•“Perdoe, deixe ir uma situação que esteja causando dor, sempre pode escolher deixar a dor ir embora”.

Uma das maiores fontes de energia é o Amor e estar conectado a Deus para aprender a perdoar. É verdade que muitas vezes a vida nos põe ante situações que nos enchem de ira, de Dor, de rancor e de medos, que dificilmente podemos superar. No entanto, quando decidimos não alimentar estes sentimentos e começar a perdoar, tudo em nossa vida melhora, e com o tempo nos damos conta que tomamos uma boa decisão. O ódio, o rancor e a ira são sentimentos que não nos trazem nada de bom e nos podem levar a tomar más decisões.


Fonte: http://www.revistapazes.com/ladroes-energia-dalai/

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O que tenho lido: Dias em Birmânia - George Orwell

John Flory não esconde sua impaciência para com a vida de madeireiro na Birmânia (atual Mianmar) dos anos 1920, quando o remoto país asiático era uma colônia britânica. No clube de brancos racistas e bêbados que freqüenta, Flory é considerado um bolchevique por ser amigo dos "negros", isto é, os nativos do lugar.
"Expressar-se livremente é impensável", diz Flory, sobre a miserável existência na colônia. "Você é livre para virar um bêbado, ocioso, covarde, maledicente, fornicador; mas não é livre para pensar por si mesmo." Apesar de não esconder sua estreita amizade com o médico local, um indiano honesto e dedicado, Flory demonstra relutância em defendê-lo abertamente, junto aos membros do clube europeu, contra as calúnias de U Po Kyin, magistrado nativo corrupto e ambicioso.
A chegada de Elizabeth, uma jovem inglesa casadoira, faz o calejado administrador enxergar sua única chance de construir uma vida digna e feliz. Mas o angustiado Flory, um dos mais complexos e apaixonantes personagens modelados pelo gênio de George Orwell, parece não ter o poder de mudar o rumo dos acontecimentos.

Trecho do livro:

U Po Kyin, magistrado subdivisional de Kyauktada, na Alta Birmânia, estava sentado em sua varanda. Eram só oito e meia da manhã, mas o mês era abril e havia uma opressão no ar, a ameaça das longas horas sufocantes do meio do dia. Fracos e ocasionais arquejos de vento, dando uma impressão de frescor por contraste, agitavam as orquídeas recém-regadas que pendiam do beiral. Para além das orquídeas podia-se ver o tronco empoeirado e curvo de uma palmeira, e em seguida o fulgor do céu de um azul ultramarino. No zênite, tão altos que ofuscava olhar para eles, alguns abutres descreviam círculos com as asas totalmente imóveis.
Sem mudar de expressão, lembrando um grande ídolo de porcelana, U Po Kyin contemplava o mundo imerso na feroz luz do sol. Era um homem de cinqüenta anos, tão gordo que fazia anos não conseguia se levantar da cadeira sem ajuda, porém ao mesmo tempo gracioso e até belo em sua corpulência; porque os birmaneses obesos não ficam flácidos e encalombados como os brancos, mas engordam simetricamente, por igual, como frutos inchados. Seu rosto era largo, amarelo e quase sem rugas, e seus olhos de um castanho muito claro. Seus pés - pés gordos e arqueados, com todos os dedos do mesmo comprimento - estavam descalços, assim como a cabeça raspada também estava descoberta, e ele usava um dos alegres longyis produzidos em Arakan, quadriculados de verde e magenta, que os birmaneses gostam de vestir em ocasiões informais. Mascava bétel, que guardava numa caixa laqueada em cima da mesa, e pensava em sua vida passada.
Tinha sido uma vida de sucesso notável. A memória mais remota de U Po Kyin, na década de 1880, era a de ter assistido de pé, ainda um menino nu e barrigudo, ao desfile dos soldados britânicos que entravam triunfalmente em Mandalay. Lembrou-se do terror que sentira diante daquelas colunas de homens imensos alimentados de carne bovina, com seus rostos corados e casacos vermelhos; e dos fuzis de cano longo que traziam presos ao ombro, e do trovejar pesado e rítmico de suas botas. Saíra correndo, depois de vê-los marchar por alguns minutos. A seu modo infantil, percebera que seu povo não tinha a menor condição de enfrentar aquela raça de gigantes. Alinhar-se do lado dos britânicos, transformar-se num parasita deles, constituiu sua maior ambição desde a infância.
Aos dezessete anos, tentou obter seu primeiro cargo no governo, mas fracassou, por ser pobre e não ter amigos, e nos três anos seguintes trabalhou no malcheiroso labirinto dos bazares de Mandalay, fazendo vendas para os mercadores de arroz e às vezes roubando-os. Aos vinte anos, um bem-sucedido golpe de chantagem lhe valeu quatrocentas rupias, com as quais foi imediatamente até Rangoon e comprou um cargo de pequeno funcionário no governo. O emprego era lucrativo, embora o salário fosse pequeno. Àquela altura, uma quadrilha de funcionários vinha auferindo uma renda regular mediante a desapropriação sistemática de bens públicos, e Po Kyin (na época apenas Po Kyin: o U honorífico só viria anos depois) aderiu naturalmente a esse tipo de operação. Entretanto, tinha talento demais para passar o resto da vida num cargo como aquele, contando miseravelmente seus roubos em moedas de pouco valor como annas e pice. Um dia, descobriu que o governo, diante da falta de quadros para cargos de importância intermediária, pretendia promover alguns pequenos funcionários como ele.A notícia iria se tornar pública dali a uma semana, mas uma das qualidade de Po Kyin era sempre conseguir as informações uma semana antes de todo mundo. Ele viu ali sua oportunidade, e denunciou todos os seus cúmplices antes que eles pudessem se precaver. A maioria foi mandada para a prisão, e Po Kyin acabou nomeado supervisor assistente municipal como recompensa por sua honestidade. Desde então, nunca mais deixou de subir. Agora, aos cinqüenta e seis anos, era magistrado subdivisional, e tudo indicava que seria promovido ainda mais e nomeado comissário assistente, tendo ingleses como seus iguais e até mesmo sob suas ordens.
Como magistrado, seus métodos eram simples. Mesmo pelo maior dos subornos, ele jamais vendia a decisão de um caso, pois sabia que um magistrado que emite julgamentos errados acaba sendo descoberto mais cedo ou mais tarde. Seu modo de agir, muito mais seguro, era aceitar suborno dos dois lados e, depois, resolver o caso estritamente de acordo com a lei. O que ainda lhe valia uma muito proveitosa reputação de imparcialidade. Além da renda que auferia junto aos litigantes, U Po Kyin extorquia um tributo permanente, uma espécie de taxação particular, de todas as aldeias submetidas à sua jurisdição. Se alguma aldeia deixava de pagar seus tributos, U Po Kyin adotava medidas punitivas - bandos de dacoits atacavam a aldeia, os moradores mais importantes eram presos com
base em falsas acusações, e assim por diante -, e não demorava muito a soma devida acabava sendo paga. Ele também recebia uma parte de todos os roubos de maior porte que ocorriam no distrito. Quase todo mundo, claro, sabia disso, menos os superiores de U Po
Kyin (nenhuma autoridade britânica jamais acreditaria numa acusação feita contra seus próprios homens), só que todas as tentativas de denunciá-lo sempre fracassavam; os homens que o apoiavam e cuja lealdade era alimentada por uma parte do butim eram numerosos demais.Toda vez que alguma acusação era feita contra ele, U Po Kyin se limitava a desacreditá-la lançando mão de uma série de testemunhas subornadas, disparando em seguida contra acusações que o deixavam numa posição mais forte do que nunca. Era praticamente invulnerável, tal sua eficiência em julgar o caráter alheio e assim jamais escolher um intermediário errado, e também porque se entregava à intriga com tanta concentração que jamais cometia um erro por descuido ou ignorância. Podia-se dizer,
quase com certeza, que ele nunca seria apanhado, que seguiria em frente, de sucesso em sucesso, e que por fim haveria de morrer coberto de honrarias, com uma fortuna de vários lakhs de rupias.
E mesmo no além-túmulo seu triunfo haveria de continuar. De acordo com a crença budista, os que praticam o mal na vida passam à encarnação seguinte na forma de um rato, um sapo ou algum outro animal inferior. U Po Kyin era um bom budista e estava decidido a se prevenir contra esse risco. Havia de dedicar seus últimos anos a boas causas, graças às quais acumularia mérito suficiente para sobrepujar o que ocorrera no restante de sua vida. É provável que suas boas obras tomassem a forma da construção de pagodes. Quatro pagodes, cinco, seis, sete - os monges lhe diriam quantos - com adornos de pedra esculpida, toldos de orla dourada e sinetas que tocavam ao vento, cada toque uma prece. E ele voltaria à terra em forma humana e masculina - pois a mulher tinha mais ou menos a mesma importância hierárquica de um rato ou um sapo - ou, na pior das hipóteses, na forma de algum animal
digno, como um elefante.
Todos esses pensamentos corriam rapidamente pelo espírito de U Po Kyin, e quase sempre em imagens. Seu cérebro, embora astucioso, era bastante bárbaro, e só funcionava para determinadas finalidades; a mera meditação estava além de seus hábitos. E agora ele chegava ao ponto para o qual vinham tendendo seus pensamentos. Apoiando as mãos pequenas e triangulares nos braços da cadeira, virou-se um pouco para trás e chamou, com uma voz roufenha:
"Ba Taik! Ei, Ba Taik!"
Ba Taik, criado de U Po Kyin, surgiu através da cortina de contas da varanda. Era um homem miúdo e coberto de marcas de varíola, com uma expressão tímida e faminta. U Po Kyin não lhe pagava salário, porque era um ladrão condenado que uma palavra bastaria
para devolver à prisão. À medida que avançava, Ba Taik fazia uma reverência tão profunda que dava a impressão de estar dando um passo para trás.
"Sagrado deus?", disse ele.
"Há alguém esperando para me ver, Ba Taik?"
Ba Taik enumerou os visitantes nos dedos: "O chefe da aldeia de Thitpingyi, Excelência, que lhe trouxe presentes, e mais dois aldeões envolvidos num caso de agressão que será julgado por Sua Excelência, e eles também lhe trouxeram presentes. Ko Ba Sein, o funcionário chefe do gabinete do vice-comissário, quer vê-lo, e também Ali Shah, o policial, e um dacoit cujo nome eu não sei. Acho que se desentenderam por causa de uns brincos de ouro roubados. E também uma jovem aldeã com um bebê."
"O que ela quer?", perguntou U Po Kyin.
"Está dizendo que o filho é seu, Santidade."
"Ah. E quanto trouxe o chefe da aldeia?"
Ba Taik achava que eram apenas dez rupias e uma cesta de mangas.
"Diga ao chefe", disse U Po Kyin, "que precisa me trazer vinte rupias, e que ele e a aldeia terão muitos problemas se o dinheiro não estiver aqui amanhã. E agora vou receber os outros. Peça a Ko Ba Sein que venha me ver aqui."
Ba Sein apareceu dali a instantes. Era um homem ereto, de ombros estreitos, muito alto para um birmanês, com o rosto curiosamente liso de uma cor e textura que lembravam um pudim de café. U Po Kyin o considerava um instrumento útil. Desprovido de imaginação,mas muito esforçado, era um funcionário excelente, e o sr. Macgregor, o vice-comissário, confiava-lhe a maioria de seus segredos oficiais. U Po Kyin, que seus pensamentos anteriores haviam deixado de bom humor, cumprimentou Ba Sein rindo e indicou a caixa de bétel com um aceno.
"E então, Ko Ba Sein, como está caminhando o nosso negócio? Espero que, como diria o senhor Macgregor"- e U Po Kyin passou a falar em inglês -, "esteja fazendo progressos perceptíveis."
Ba Sein não riu do gracejo. Sentando-se muito ereto e com as costas bem alongadas na cadeira vazia, respondeu:
"Está excelente, senhor. O nosso exemplar do jornal chegou hoje de manhã. Tenha a bondade de ler."
Exibiu um exemplar do jornal bilíngüe chamado O Patriota Birmanês. Era um pobre jornaleco de oito páginas, horrivelmente impresso num papel que era quase um mata-borrão, consistindo em parte em notícias roubadas da Gazeta de Rangoon, em parte em textos fracos sobre o culto ao heroísmo nacionalista. Na última página, os tipos tinham escorregado e deixado o papel todo coberto de preto, como que de luto pela exigüidade da tiragem do jornal. O artigo ao qual U Po Kyin dedicou atenção tinha um cunho bem diferente do resto. E dizia:

Nestes tempos felizes em que nós, os pobres negros, vimos sendo beneficiados pela poderosa civilização ocidental, com suas inúmeras bênçãos, tais como o cinematógrafo, as metralhadoras, a sífilis etc., que tema poderia ser mais inspirador do que a vida particular dos nossos benfeitores europeus? Pensamos, assim, que pode interessar aos nossos leitores saber um pouco acerca do que vem acontecendo no distrito de Kyauktada, no norte do país. E especialmente acerca do sr. Macgregor, honrado vice-comissário do citado distrito.
O sr. Macgregor é o protótipo do Perfeito Cavalheiro Inglês, de que, nestes tempos felizes, temos tantos bons exemplos diante dos olhos. É um "homem de família", como dizem nossos queridos primos ingleses. De fato, um homem de muito zelo para com a família, o sr. Macgregor. Tanto que já acumula três filhos no distrito de Kyauktada, onde vive há apenas um ano, e no seu distrito anterior, de Shwemyo, deixou para trás seis jovens
descendentes. Talvez seja uma certa ligeireza da parte do sr. Macgregor ter deixado essas jovens criaturas sem nenhum amparo, e algumas das mães correndo o risco de passar fome etc. etc. etc.

Havia mais uma coluna de matérias semelhantes, e por mais terríveis que fossem, ainda assim ficavam num nível bem superior ao do restante do jornal. U Po Kyin leu com atenção o artigo de ponta a ponta, segurando-o com o braço esticado - tinha a vista cansada
- e franzindo pensativamente os lábios, o que revelava uma incrível quantidade de dentes pequenos e perfeitos, tintos de vermelho-sangue devido ao suco do bétel.
"O editor será condenado a seis meses de prisão por causa disto", disse por fim.
"Ele não se importa. Diz que só na prisão consegue ser deixado em paz pelos credores."
"E você me contou que foi o seu aprendiz Hla Pe quem escreveu este artigo sozinho? O rapaz é muito esperto - muito promissor! Nunca mais torne a me dizer que essas Escolas Secundárias do Governo são uma perda de tempo. Hla Pe certamente deve ser promovido a funcionário titular."
"O senhor então acha que o artigo vai bastar?"
U Po Kyin não respondeu de imediato. Começara a emitir um som de sopro laborioso; tentava levantar-se da cadeira. Era um som que Ba Taik conhecia bem. Ele apareceu por trás da cortina de contas, e ele e Ba Sein puseram uma das mãos debaixo de cada axila de U Po Kyin e o ajudaram a se erguer.U Po Kyin ficou algum tempo equilibrando o peso da barriga nas pernas, fazendo os movimentos de um carregador de peixes que endireita sua carga. Em seguida, dispensou Ba Taik com um gesto.
"Não, não basta", disse ele, respondendo à pergunta de Ba Sein, "de maneira nenhuma. Ainda precisamos fazer muito mais. Mas foi o começo certo. Escute."
Foi até a balaustrada cuspir restos escarlates de bétel, depois começou a percorrer a varanda com passos curtos, as mãos atrás das costas. A fricção de suas vastas coxas o fazia oscilar ligeiramente. À medida que caminhava, ia falando, no jargão básico dos funcionários públicos - uma colcha de retalhos que reunia verbos birmaneses com expressões abstratas inglesas:
"Bom, agora vamos cuidar desse caso desde o início. Vamos fazer um ataque combinado ao doutor Veraswami, que é o médico civil e superintendente da prisão. Vamos caluniá-lo, destruir sua reputação e, no final, deixá-lo desgraçado para sempre. Vai ser uma operação delicada."
"Sim, senhor."
"Não vamos correr nenhum risco, precisamos fazer as coisas devagar. Quem vai estar na nossa mira não é um funcionário comum, ou um mero policial. É um alto funcionário, e com um alto funcionário, mesmo que seja indiano, não agimos da mesma forma que com um escrevente qualquer. Para arruinar um escrevente, como se faz? É fácil; uma acusação, duas dúzias de testemunhas, demissão e cadeia. Mas nesse caso não adianta. De mansinho, de mansinho, de mansinho é o jeito certo. Nada de escândalo e, acima de tudo, nada de inquérito oficial. Não pode haver nenhuma acusação passível de resposta, mas ainda assim, dentro de três meses, quero fixar na cabeça de todos os europeus de Kyauktada que o nosso médico não presta. Do que será que eu posso acusá-lo? De suborno
não pode ser, nenhum médico tem a oportunidade de receber suborno. Do quê, então?"
"Podíamos talvez organizar uma rebelião na cadeia", disse Ba Sein. "Na qualidade de superintendente, o doutor podia levar a culpa."
"Não, é perigoso demais. Não quero os guardas da cadeia dando tiros de fuzil para todo lado. Além disso, iria custar muito caro. Então, é óbvio que a acusação só pode ser uma: deslealdade - nacionalismo, propaganda sediciosa. Precisamos convencer os europeus de que o doutor tem opiniões desleais e antibritânicas. É muito pior do que suborno; para eles, é até natural que um funcionário nativo aceite suborno. Mas, se eles suspeitarem da lealdade dele por um momento que seja, o homem está perdido."
"É coisa difícil de provar", objetou Ba Sein. "O médico é muito leal aos europeus. Fica irritado quando dizem alguma coisa contra eles. E eles devem saber disso, o senhor não acha?"
"Bobagem, bobagem", disse U Po Kyin,muito seguro."Os europeus dão pouca importância às provas. Quando um homem tem a cara preta, a menor suspeita já basta. Algumas cartas anônimas produzem milagres. É só uma questão de persistência. Acusar, acusar, e continuar acusando - é assim que a coisa funciona com os europeus. Uma carta anônima atrás da outra, endereçada a um europeu depois do outro. E então, quando as suspeitas estiverem despertadas..."
U Po Kyin tirou um dos braços de trás das costas e estalou os dedos. Depois acrescentou: "Começamos com este artigo no Patriota Birmanês. Os europeus vão ficar furiosos quando lerem. E então o próximo movimento será convencê-los de que foi escrito pelo médico". "Vai ser difícil enquanto ele tiver amigos europeus. É ele que todos procuram quando ficam doentes. Ele curou o senhor Macgregor da flatulência quando o tempo ficou mais frio. É considerado um médico muito habilidoso, acho."
"Como você entende pouco da mentalidade européia, Ko Ba Sein! Se os europeus procuram o doutor Veraswami, é só porque não existe outro médico em Kyauktada. Nenhum europeu confia num homem de cara preta. Não, com as cartas anônimas é só uma questão de mandar o número certo delas. Vou cuidar para que daqui a pouco ele não tenha mais nenhum amigo."
"Mas tem o senhor Flory, o comerciante de madeira", disse Ba Sein (da maneira como pronunciava, o nome parecia "Porley".) "Ele é amigo íntimo do doutor. Todo dia de manhã, quando está em Kyauktada, vai à casa dele. E duas vezes até convidou o médico para jantar na casa dele."
"Ah, nisso você está certo. Se Flory continuar amigo do doutor, isso poderá nos prejudicar. Não é possível atacar um indiano que tenha um amigo europeu. A amizade com um branco lhe dá - como é mesmo a palavra de que eles gostam tanto? - prestígio. Mas eu sei que Flory há de abandonar o amigo na mesma hora, assim que os problemas começarem. Essas pessoas não têm o menor sentimento de lealdade para com os nativos. Além disso, por acaso eu sei que Flory é um covarde. Com ele eu posso lidar. A sua parte, Ko Ba Sein, é vigiar os movimentos de Macgregor. Ele tem escrito para o comissário ultimamente - serão cartas confidenciais?"
"Escreveu há dois dias, mas quando abrimos a carta com vapor vimos que não continha nada de importante."
"Pois bem, então vamos lhe dar assunto. E assim que ele começar a suspeitar do médico, vai ser a hora de começarmos a tratar daquele outro caso de que eu lhe falei. E assim nós vamos - como é mesmo que diz o senhor Macgregor? Ah, sim, 'matar dois coelhos com uma só cajadada'. Várias dúzias de coelhos - ha, ha!"
[...]

Fonte: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12218