sábado, 4 de junho de 2016

Segue o teu destino


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterônimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tradição Ocidental Materialista.

Tradição Ocidental Materialista. Somos amontoados de partículas, mas abaixo das partículas... não sei... mas deve ser material também (?). Deve ser material, ainda que eu saiba que atualmente só 4% do universo seja explicável com minha ciência. O Big Bang. Antes? Não sei... Ah não sei... Deve ser material também. Mas ó. Tem outros universos, com outras leis científicas diferentes das do nosso universo, mas elas só funcionam lá, aqui é material, os outros não. Mas é comprovado? Não, é uma reflexão que faço com minha cabeça fruto de um amontoado de partículas materiais que pensa que outros universos são também materiais com outras leis que o governam (lei não é uma metáfora advinda da sociedade humana? a natureza poderia ter suas recorrências ordenadas em umas "lei" como categoria de pensamento humano-social? Qual nome a natureza poderia se autoreferir para falar sobre seu funcionamento? Manoel de Barros? Oi? Opa, ser humano é natureza, mas pq projetar mais eu na natureza do que a natureza em mim?). Se há outros universos hipoteticamente, qual garantia que eles sejam materiais? E se eles se unificam com nosso universo, qual é a lei científica materialista que seria capaz de assegurar tal conectividade com universos regulados por outras leis. Se há unificação, qual lei não-materialista aplicada a outros universos que tem conectividade com nosso universo? Propor uma unificação não é algo meio monoteísta? Como um princípio uno que governo tudo? Mas não é pretensão demais dizer com base em 4% de 01 universo observável, sem falar dos outros trilhões existentes? Se a natureza é um amontoado de partículas e eu sou capaz de perceber isso eu tenho direito de manipulá-la de acordo com as necessidades humanas? Quais são as necessidades humanas? São materialistas, tipo, dinheiro? Então natureza materializada pode ser usada para fins materiais? E quando um amontoado de partículas pensa em possibilidades não materiais? O pensar é material? E pensar no não-material é material? E se o pensar não-material, no cérebro material, não querer o uso da natureza com fins materiais, pq não vê ela somente material? E se esse sugerir que não use a natureza de modo material e for ridicularizado por aquele que vê a natureza como material, e que conhece suas leis, e conhece até as leis desconhecidas? Conhece o desconhecido? E se a atitude diante do desconhecido for uma atitude sem a expectativa de que ele seja capaz de ser abarcado pelo meu pensamento? E se diante do desconhecido eu pensar que ele cabe na minha ciência, na minha religião? E se eu materializar o desconhecido antes de saber se ele é material, justamente por ser mistério? E se o desconhecido é índio, e se sua ciência não for material? Materializo o desconhecido para me relacionar com ele? Materializando-o alcanço seu ser? Materializando o desconhecido, o universo desconhecido, alcanço sua essência? Essência não é uma ideia humana? A natureza deve e tem que ter essência? Essência material não é ambíguo? Ciência, material, natureza e índio não são linguagem? A linguagem abarca o todo? A poesia? E se eu me relacionar com o mistério sem conceitos pré estabelecidos, esperando que ele me mostre o que é, mesmo que não seja material? E se pensar no desconhecido é me relacionar com ele, posso concebê-lo como habitando em mim? E se eu for feito dos meus mistérios profundos? E se o amor for mistério para mim? E se eu não for feito de partículas, mas de amor?








No ônibus 1

No ônibus 1

Buraco. Vazio. No vazio.
Desanimo. Sem força.
Perdido. Buscando sentido.
Não há respostas fora.
Não no cigarro.
Bukowski.
Bucólico.
Eis o caminho: consciência do vazio.
O que fazer?
Vazio finito, pois completa-se no fazer. 
Não fazer: vazio.
Escrita, mãos; trabalho sobre si.
Lapidar-se: esculpir si mesmo.
Tempo livre. Tempo livre com educação de si.
Paidéia.
Não perder-se: consciência.
O que fazer?
Preencher o vazio.
Caminha na busca solitária.
Qual palavra? Qual verbo?
Qual sentimento.
Mergulhar-se, sem medo de conhecer-se.
O conceito não foi esgotado.
O caminho não foi trilhado.
Erros, conjunto dos erros: experiência.
Tentar, caminho, sem busca do quê?
De não pensar, em não parar.
Buscar-se, nessa temporada no inferno.
Rimbaud.
Partilha, compartilhar.
Dor no peito, o que queres de mim?
O que queres de mim?
No transporte coletivo,
exercício de eternidade.
Cansaço, recuperar-se.
Re-cura. Curar-se de que enfermidade?
Existência. Existo. Penso. Sinto.
Todo conhecer que habita em mim.
Partilha.
Sem querer doutrinar.
Sem impor verdades.
Há verdade, a verdade reside no agora. Agora.
Ver-se aos olhos alheios.
Ver-se nos olhos alheios.
Prazeres efêmeros, desencadeiam.
Desencadeiam; encadeamentos.
De ideias, sentimentos.
Consciência de existir.
Dor de sentir, sentir.
Arte que não é posta à parte.
Mas é pintura. Autorretrato.
Criar. Criar-se para reduzir o caos,
e do caos, criar novos hábitos,
novas regularidades.
Mutação, rumo à transformação,
evolução, nova pele, novo ser,
novas escolhas, novas atitudes.
Respirar: viver.
Viver o ser humano que sou.
Criar o universo. De dentro da alma posta agora.
Escrita como forma de terapia.
Materializar-me em versos.
Versos. Verbo.
Do caos: o verbo.
Registrar-me.
Deleite. Deleite.
De me ver. De me sentir.
De me viver.
Diminui a intensidade.
Calma.
Papel e caneta: expressões do vazio habitado
pela potência criadora, caótica.
Vazio prenhe de caos. De criação.
Verbo: coerência, regularidade.
Consciência de si mesmo.
Universo.
Unir-versos.
Universos de sentido.
Futuro, sonho, desejo e o medo.
Medo das escolhas.
Os erros são, pois, formas.
Formar. Plasmar.
Plástico.
Escultura.
Métrica: impor regularidade ou a forma
mais elevada da forma da consciência?
Mostrar-me: compartilhar
da felicidade de descobrir-me
parte do universo.
Memórias que habitam em mim.
Do passado, novas expectativas:
Agora. Hoje. Agora.
Sem medo de mergulhar-se no caos:
não há vazio.
Falso vazio:
território múltiplo de potencialidades.
Goodbye Babylon.
Febre de sentir.
Caos em ebulição: inquietude.
Desassossego. Fernando Pessoa.
Criativo caos.
Criativo desassossego.
Potencialidade criadora.
Do caos: o verbo.
Desaceleração:
Ordem. Regularidade.
Órbita.
Sol.
Luz.
Vida.
Deus. Senti-lo.
Recriar-me me realiza.

Torna real existir.