sexta-feira, 24 de junho de 2011

MANIFESTO PELA IGUALDADE DE DIREITOS - Cláudio Brandão

Partindo de um raciocínio dialético, o movimento de oposição que se dá entre os conservadores e os revolucionários, ou aqueles que discordam do status quo, é o motor de muitos acontecimentos políticos da História. Hoje no nosso curso, em relação ao nosso D.A. especificamente, existe uma meia dúzia de "estudantes" que são os conservadores. Eles não se importam em abrir mão de algumas práticas tradicionais, tradicionalistas melhor dizendo, em troca de uma maior inclusão dos estudantes de História nesse espaço, que em teoria é de todos. Por outro lado, aqueles que não são os freqüentadores, mais ou menos 90% do curso, parecem ser condizentes com tal situação, pois não procuram participar e muito menos se apropriar fisicamente de um espaço que foi conquistado historicamente para ser da maioria. Sabemos que uma democracia representativa não é bem aquilo que é previsto em teoria... Alguns poucos estudantes votam e depois se ausentam totalmente dos acompanhamentos acerca do desenvolvimento político desse nosso órgão. Outros, a maioria inclusive, deixam de vez o D.A. cancelando as suas contribuições, e por isso mesmo se tornam indiferentes com esse espaço que tem um valor histórico crível acerca das lutas estudantis desde a ditadura militar. Os estudantes se recusam a fazer a manutenção das permanências boas da nossa história... Enquanto isso os conservadores pensam que a dimensão da diversão, que é importante e legal, é a mais emergente nas questões do D.A. O alvoroço é repetitivo: vinhadas, calouradas, excursões e viagens para os encontros de estudantes de história por todo o Brasil. Tudo isso é importantíssimo, claro. Mas somente para 10% do nosso curso? A resposta deles revela o teor do conservadorismo: "O D.A. é daqueles que se apropriam dele..." O que falta em ambos os lados do jogo é uma lição clássica da luta histórica: Práxis. É preciso mais atitudes críticas frente a nossa realidade social e menos idealismo. O fato é que não existe democracia no nosso D.A., não existe uma inclusão da maioria, que não acontece devido a atitudes egoístas e infantis dos que o ocupam fisicamente de não se disporem para fomentar discussões a respeito da desconstrução de certas concepções de senso comum a respeito de determinadas drogas. Quem não quer democracia, não quer mobilização. O pré-conceito é usado como artifício pelos conservadores para manter a maioria do curso afastada. E esses últimos, os que estão fora do D.A., são da mesma forma conservadores, talvez piores que os primeiros, pois nem para procurar se mobilizar em prol de uma participação nas tomadas de decisões esses se prontificam. Ficam a repetir o que lêem nos textos de história e educação sobre a formação crítica do cidadão, mas não praticam cidadania no órgão político da comunidade em que está inserido. Além de conservador é um idiota em relação à coletividade. Segundo Gramschi, o intelectual orgânico é aquele intelectual que não fica somente a mercê da erudição, mas é um intelectual engajado, que tenta colocar em prática todos aqueles termos que são aprendidos na universidade. Para Braudel, o ofício do historiador é o de aclimatar experiências, ou seja, provocar experiências para que elas sejam discutidas, re-discutidas e talvez até alteradas. Em teoria a terra não é o centro do universo, na prática, para os astrônomos, ela ainda é o centro, pois eles vêem o universo a partir daqui ainda. Em teoria a terra é redonda, na prática, para um engenheiro por exemplo, ela é plana. Na teoria o tempo é relativo, na prática, para qualquer um que tem compromissos e que sabe que é necessário chegar na hora marcada, o tempo é absoluto. Na teoria já não existem ideologias e meta-narrativas, na prática, ou melhor, na práxis, a ideologia como prática crítica em prol da igualdade social existe e se faz existir. Ainda é necessário lutar historiador e historiadora, seja realista: peça o impossível!

Razão e coração - Renato Russo

" E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão...? " ( Renato Russo )

Eficácia professoral - Calvin and Hobbes

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Comunicar - François Arago

"Aquele que não comunica aos outros o que conhece parece com a murta do deserto, cujo perfume se perde para todos... Até o último dia então serei interamente da ciência e dos meus semelhantes." François Arago.

Recomendado por Antonio Rosa Campos ( http://skyandobservers.blogspot.com/ )

A História que está na moda: divulgação científica, ensino de História e internet

Keila Grinberg, professora de história da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), discute divulgação científica, ensino de história e internet em artigo exclusivo para o Café História

Por Keila Grinberg
O advento da internet trouxe novas questões para a produção do conhecimento. Já chamada de “o quadro negro do futuro”, antes do entretenimento online e do e-commerce, ao surgir a internet foi imediatamente atrelada a possibilidades de renovação de métodos de ensino (1), mesmo que o mundo dos negócios tenha avançado bem mais rápido no uso da rede do que o da educação. De qualquer forma, aliar os avanços tecnológicos e da comunicação a novas formas de educar já seduzia professores e universidades desde pelo menos a década de 1960, com a criação das primeiras Universidades Abertas na Europa, dedicadas ao ensino à distância, mais ou menos na mesma época que a linguagem da educação em massa começava a mudar, e a ênfase na palavra “aprendizado” ganhava espaço em relação à quase démodé “ensino”.

Mas o espaço que as chamadas novas tecnologias ganharam no campo da reflexão em Educação não encontrou correspondente similar na área de História. Para além da utilização do computador como ferramenta para construção de bancos de dados, principalmente por especialistas em história econômica, quantitativa ou demográfica – procedimento feito desde a década de 1960 – até recentemente foram poucos os historiadores que se dedicaram a refletir sobre as mudanças que a rede mundial de computadores traria à pesquisa, à produção e à divulgação do conhecimento em História (2).

Como bem notou Camila Dantas, os primeiros historiadores a chegarem na internet foram os amadores, seguidos por centros universitários e instituições de memória. Atualmente, projetos de divulgação científica em História na internet, a maioria localizada nos Estados Unidos, estão mesclados a reflexões mais amplas sobre os documentos produzidos em meio digital e as novas formas de realização de pesquisa acadêmica, como o projeto Digital History, desenvolvido por Daniel J. Cohen e Roy Rosenzweig na George Mason University (3).

Hoje, a maioria das atividades de historiadores na internet é relativa à digitalização de documentos e de acervos de instituições, tanto para preservá-los quanto para torná-los acessíveis a pesquisadores e interessados que dificilmente a eles teriam acesso. No Brasil, além de instituições como a Biblioteca Nacional e o Arquivo Nacional, fundamentais na discussão pública sobre a digitalização de acervos, são importantíssimas as iniciativas de grupos de pesquisa, que vêm elaborando projetos de digitalização e disponibilização online de documentos de outro modo praticamente inacessíveis ao pesquisador.

Estes avanços na disponibilização e tratamento com fontes históricas nos coloca diante de novas e complexas questões: por exemplo, a de como preservar os documentos já criados em formato digital. Este e outros desafios certamente acompanharão o trabalho dos historiadores do futuro.

Assim, creio estarmos diante de vários desafios relativos à História, à internet e à divulgação do conhecimento científico. O primeiro é o enunciado anteriormente, que mobiliza, além de historiadores, arquivistas e cientistas da informação: o desafio da preservação da documentação, produzida em vários suportes, inclusive a própria internet.

Uma história pública?

Outro desafio é a reflexão sobre a forma como o público em geral tem dialogado com os sites que disponibilizam documentos históricos, como processos criminais, registros de batismo, fotografias, relatórios oficiais etc. Hoje é muito mais fácil, para estudantes e interessados em geral, obter informações retiradas das próprias fontes históricas, coisa que anteriormente apenas os historiadores que sabiam localizá-los no mundo real o faziam.

Neste sentido, a maior facilidade em consultar documentos de épocas e locais variados significa uma maior divulgação do conhecimento histórico? Por conta da internet, estaríamos mais perto de uma História Pública, no sentido atribuído ao termo pelo National Council on Public History, qual seja, o de tornar a História, seus procedimentos metodológicos e suas referências, mais acessíveis ao grande público?

Acredito que não. Sendo um pouco pessimista, talvez um dos efeitos de tanta facilidade de acesso, neste caso principalmente a textos, possa até ter sido o contrário: apesar de não termos estatísticas ainda a respeito, é flagrante o aumento de plágios em trabalhos acadêmicos, e não há professor universitário que não tenha uma história triste para contar da ocasião em que se sentiu um policial, procurando crimes de autoria no Google (4).

Talvez aí esteja a maior dificuldade, e ao mesmo tempo o maior desafio, que une tanto o ensino de História quanto a divulgação científica na internet. Ao invés de apenas combater o plágio – que já existia mesmo antes de serem criados os mecanismos de busca, pasmem – trata-se de evidenciar, através da internet, o processo de produção do conhecimento, a começar pela própria noção de autoria, tão discutida no âmbito da criação artística. Afinal, a acessibilidade a textos e documentos proporcionada pela rede mundial de computadores, para ser bem usada, requer conhecimentos prévios sobre confiabilidade e relevância das informações a ser obtidas na internet. Sem elas, o leitor – ou o usuário do sistema – não consegue avançar na leitura e na produção de texto (de qualquer texto, de uma tese a um comentário em um blog).

Como fazer isso? Um caminho possível é criar mecanismos que permitam ao usuário – leitor, estudante, qualquer que seja seu login – conhecer as etapas do processo de produção do conhecimento em História. Assim, saber ler documentos de época, contextualizá-los, criticá-los, cotejar as informações obtidas com outros documentos e com outros textos, verificar a procedência de informações obtidas nestes textos são alguns dos procedimentos que ajudam as pessoas a observar, analisar e classificar informações de qualquer natureza. No caso das informações de natureza histórica, isto é fundamental, tanto para os estudantes de História, quanto para os interessados no assunto.

Refletir sobre o processo de produção do conhecimento histórico talvez não seja o objetivo inicial das pessoas interessadas em História – público potencial das ações de divulgação científica – que buscam a internet como forma de aprimorar seus conhecimentos. Mas talvez esta seja uma surpresa que os historiadores podem reservar a seus leitores: além de divulgar o conhecimento produzido nas universidades, divulgar também seu processo de produção. E a internet, para isso, é um meio extraordinário. Quem sabe se, agindo desta maneira, conseguiremos começar a superar o paradoxo de lidar com uma História ao mesmo tempo tão desestimulante na escola e tão interessante na mídia?

Notas

(1) A expressão é do Secretário de Educação de Bill Clinton, dita em 1996, por ocasião da implementação da ligação, por telefone fixo, das salas de aula da Califórnia com a Internet. Apud Briggs, Asa & Burke, Peter (2006). Uma História Social da Mídia: de Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 303.

(2) Ver, a respeito, Figueiredo, Luciano (1997), “História e informática: o uso do computador”, in Cardoso, Ciro Flamarion e Ronaldo Vainfas (orgs.). Domínios da História. Rio de Janeiro, Campus. Para uma história da relação entre os historiadores e a internet, ver a excelente dissertação de mestrado de Camila Guimarães Dantas. Dantas, Camila Guimarães (2008), O passado em bits: memórias e histórias na internet.Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Memória Social/UNIRIO.

(3) Camila Guimarães Dantas, op. cit., p. 50. Ver o projeto Digital History: http://chnm.gmu.edu/digitalhistory/ acessado em 02 de setembro de 2010.

(4) Ver, a respeito, o artigo de Brent Staples, “Cutting and Pasting: a sênior thesis”, publicado no New York Times em 12 de julho de 2010.http://www.nytimes.com/2010/07/13/opinion/13tue4.html?_r=1&src=me&ref=opinion acessado em 08 de setembro de 2010.


Keila Grinberg - nasceu no Rio de Janeiro em 1971. Graduou-se em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), na qual concluiu também o doutorado em 2000, após um período como estudante visitante na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Em 2002, tornou-se professora do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e, desde 2004, é pesquisadora do CNPq.

Hoje, 11 livros e vários artigos e capítulos depois, a colunista continua a estudar a escravidão no Brasil do século 19, mas se dedica também à divulgação científica na área de história e ao desenvolvimento de novas metodologias para incrementar o ensino dessa disciplina nas escolas e universidades. É colunista titular da coluna “Em tempo”, da revista Ciência Hoje Online. Envie críticas, comentários e sugestões para keila@pobox.com.

Ao leitor - Charles Baudelaire

In: As Flores do Mal

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trimegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feios, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Publicidade genial: Eduardo e Mônica.

Como disse Gustavo, meu irmão, "os publicitários da Oi são burros..."

O filme (publicitário):