quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Cinthyla

Riso, sorriso, quizo de gata
brinca, recreia, recria de nada
esparrama, deitada, acorda
da realidade pra viver num sonho
de cores, sabores; cinthyla!

Respiração; inspiração.
Inspira, inspira, inspira!
Aaaahhhh... ar, ar! Respirar!
Cheiro, gosto, mulher!
Mordida, contato, presença.
Inspira mesmo em ausência.

Som, corda, baixo.
Acorda ao sabor do acaso.
Caso, case, cello.
Som da cor ao sabor-entusiasmo.
Ruídos ofegantes, gemido indiscreto.
São notas de um concerto tesão.

Desenho é o seio impossível
de vetorização, não-racionalização.
O ventre, dimensão intangível
senão pelo tato-transcendente.
Corpo que é copo, transborda,
transborda...

Cores, sabor. Cheiro, cheiro, cheiro.
Aaahhhh... cheiro!!!
Sabor!!! Cor!!!
Delícia que cintila,
sim tira, tira...
brilha; cinthyla.

Alma, alma, alma!
Transborda de alma!
Brilha de não-ter
o que irrelevante pra viver
Releva. Revela, revela vida.
Luz, ilumina.

Amor astral

Amor astral

Se eu ousasse a descrever-te
seria assim:
meu amor é astral.

Dessa premissa desdobram-se características
que são como as órbitas que o satélite percorre
ao redor
do astro-mor:
o amor.

Amor à música,
que de tanto querer
não se entrega
a não ser que seja
entrega total,
sem hesitação.

A música é uma oração,
que eleva ao nível dos astros etéreos, nobres.
Ao nível do astro-mor:
o amor.

O amor, por isso, é sempre fim, destino.
Destino que, sempre provisório,
é início
para uma nova viagem.
Das janelas do transporte
o objetivo é sempre
um novo ângulo do astro-mor-destino-fim:
o amor.

Meu amor é mutação.
Vira, revira.
De cabeça pra baixo, barriga pra cima, pra baixo.
As meias nunca tem lugar.
Os livros? Sempre com as meias.
A cabeça não para de girar,
sempre a trabalhar para descobrir
as criações sobre as transmutações mais nobres;
sempre recriar para:
o amor.

Este amor é da terra,
das plantas, dos bichos, oprimidos.
É da caridade natural,
aquele altruísmo devoto à salvação
da ordem natural do que
por essência é natural.
Mesmo que seja talvez supra-natural e metafísico,
o que guia e ordena a sua sensibilidade,
as atitudes para com as quatro patas e o verde é:
o amor.

Este amor é ar,
sempre a viajar de nação em nação.
Viaja na terra, viaja no sonho.
Alcança templos de luz astrais.
Vê passado-presente-futuro em espaços nunca visitados.
Viaja, viaja, viaja.
Quando sai da rota e sente medo pelo visto que
não-deveria-ser-visto-naquele-momento,
se assusta exatamente diante da antítese do:
amor.

Se eu ousasse a descrever-te seria assim:
meu amor é astral.
Dos astros que tem a substância
da terra, do fogo, da água, do ar.

Tu és o amor a buscar a própria consciência.
O amor a se reconhecer.
A aprender e reaprender a amar.
A amar mais.
A amar melhor.

Infinito círculo cíclico:
tu és o amor,
amor por princípio,

amor por fim.

Reto



Praticamente reto ou sobre a cidade e a loucura.




Retas.

Retas agudas.

Destino reto.

Sempre com destino.

Todos com destinos.




Retas paralelas.

Retas que se cruzam.

Retas transversais.

Retas com origens diferentes.

Com destinos diferentes.




Retas com origens e destinos contrários.




Repouso reto.

Espera reta.




Movimento parabólico com destino: reto.

A curva com origem e destino: reta.




Reto agir.

Reto pensar.




Um reta cruza o plano cartesiano.

Racionalidade.




Na cidade geométrica

sujeitos sem origem

e sem destino




Caminham Param

Circulam




Círculos ou

trajetos

abstratos




Dormem

no

chão

sem retidão

Distoam

do reto

agir




Falamqualquercoisaquesentir




"Sem sentido" é o julgamento

daqueles que tem sentido:

com origem, com destino:

que caminham retos.




Na racionalidade

do plano cartesiano:

o sentido.




Sem sentido e sem retidão:

os loucos.




E´ louco o poeta que caminha pela cidade sem origem e destino e transforma em versos suas impressões sobre a cidade e seus sujeitos com origem e destino?




Com origem e destino, o poeta perceberia os sujeitos que não estão em sua

reta?

sábado, 4 de junho de 2016

Segue o teu destino


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis, in “Odes”
Heterônimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tradição Ocidental Materialista.

Tradição Ocidental Materialista. Somos amontoados de partículas, mas abaixo das partículas... não sei... mas deve ser material também (?). Deve ser material, ainda que eu saiba que atualmente só 4% do universo seja explicável com minha ciência. O Big Bang. Antes? Não sei... Ah não sei... Deve ser material também. Mas ó. Tem outros universos, com outras leis científicas diferentes das do nosso universo, mas elas só funcionam lá, aqui é material, os outros não. Mas é comprovado? Não, é uma reflexão que faço com minha cabeça fruto de um amontoado de partículas materiais que pensa que outros universos são também materiais com outras leis que o governam (lei não é uma metáfora advinda da sociedade humana? a natureza poderia ter suas recorrências ordenadas em umas "lei" como categoria de pensamento humano-social? Qual nome a natureza poderia se autoreferir para falar sobre seu funcionamento? Manoel de Barros? Oi? Opa, ser humano é natureza, mas pq projetar mais eu na natureza do que a natureza em mim?). Se há outros universos hipoteticamente, qual garantia que eles sejam materiais? E se eles se unificam com nosso universo, qual é a lei científica materialista que seria capaz de assegurar tal conectividade com universos regulados por outras leis. Se há unificação, qual lei não-materialista aplicada a outros universos que tem conectividade com nosso universo? Propor uma unificação não é algo meio monoteísta? Como um princípio uno que governo tudo? Mas não é pretensão demais dizer com base em 4% de 01 universo observável, sem falar dos outros trilhões existentes? Se a natureza é um amontoado de partículas e eu sou capaz de perceber isso eu tenho direito de manipulá-la de acordo com as necessidades humanas? Quais são as necessidades humanas? São materialistas, tipo, dinheiro? Então natureza materializada pode ser usada para fins materiais? E quando um amontoado de partículas pensa em possibilidades não materiais? O pensar é material? E pensar no não-material é material? E se o pensar não-material, no cérebro material, não querer o uso da natureza com fins materiais, pq não vê ela somente material? E se esse sugerir que não use a natureza de modo material e for ridicularizado por aquele que vê a natureza como material, e que conhece suas leis, e conhece até as leis desconhecidas? Conhece o desconhecido? E se a atitude diante do desconhecido for uma atitude sem a expectativa de que ele seja capaz de ser abarcado pelo meu pensamento? E se diante do desconhecido eu pensar que ele cabe na minha ciência, na minha religião? E se eu materializar o desconhecido antes de saber se ele é material, justamente por ser mistério? E se o desconhecido é índio, e se sua ciência não for material? Materializo o desconhecido para me relacionar com ele? Materializando-o alcanço seu ser? Materializando o desconhecido, o universo desconhecido, alcanço sua essência? Essência não é uma ideia humana? A natureza deve e tem que ter essência? Essência material não é ambíguo? Ciência, material, natureza e índio não são linguagem? A linguagem abarca o todo? A poesia? E se eu me relacionar com o mistério sem conceitos pré estabelecidos, esperando que ele me mostre o que é, mesmo que não seja material? E se pensar no desconhecido é me relacionar com ele, posso concebê-lo como habitando em mim? E se eu for feito dos meus mistérios profundos? E se o amor for mistério para mim? E se eu não for feito de partículas, mas de amor?








No ônibus 1

No ônibus 1

Buraco. Vazio. No vazio.
Desanimo. Sem força.
Perdido. Buscando sentido.
Não há respostas fora.
Não no cigarro.
Bukowski.
Bucólico.
Eis o caminho: consciência do vazio.
O que fazer?
Vazio finito, pois completa-se no fazer. 
Não fazer: vazio.
Escrita, mãos; trabalho sobre si.
Lapidar-se: esculpir si mesmo.
Tempo livre. Tempo livre com educação de si.
Paidéia.
Não perder-se: consciência.
O que fazer?
Preencher o vazio.
Caminha na busca solitária.
Qual palavra? Qual verbo?
Qual sentimento.
Mergulhar-se, sem medo de conhecer-se.
O conceito não foi esgotado.
O caminho não foi trilhado.
Erros, conjunto dos erros: experiência.
Tentar, caminho, sem busca do quê?
De não pensar, em não parar.
Buscar-se, nessa temporada no inferno.
Rimbaud.
Partilha, compartilhar.
Dor no peito, o que queres de mim?
O que queres de mim?
No transporte coletivo,
exercício de eternidade.
Cansaço, recuperar-se.
Re-cura. Curar-se de que enfermidade?
Existência. Existo. Penso. Sinto.
Todo conhecer que habita em mim.
Partilha.
Sem querer doutrinar.
Sem impor verdades.
Há verdade, a verdade reside no agora. Agora.
Ver-se aos olhos alheios.
Ver-se nos olhos alheios.
Prazeres efêmeros, desencadeiam.
Desencadeiam; encadeamentos.
De ideias, sentimentos.
Consciência de existir.
Dor de sentir, sentir.
Arte que não é posta à parte.
Mas é pintura. Autorretrato.
Criar. Criar-se para reduzir o caos,
e do caos, criar novos hábitos,
novas regularidades.
Mutação, rumo à transformação,
evolução, nova pele, novo ser,
novas escolhas, novas atitudes.
Respirar: viver.
Viver o ser humano que sou.
Criar o universo. De dentro da alma posta agora.
Escrita como forma de terapia.
Materializar-me em versos.
Versos. Verbo.
Do caos: o verbo.
Registrar-me.
Deleite. Deleite.
De me ver. De me sentir.
De me viver.
Diminui a intensidade.
Calma.
Papel e caneta: expressões do vazio habitado
pela potência criadora, caótica.
Vazio prenhe de caos. De criação.
Verbo: coerência, regularidade.
Consciência de si mesmo.
Universo.
Unir-versos.
Universos de sentido.
Futuro, sonho, desejo e o medo.
Medo das escolhas.
Os erros são, pois, formas.
Formar. Plasmar.
Plástico.
Escultura.
Métrica: impor regularidade ou a forma
mais elevada da forma da consciência?
Mostrar-me: compartilhar
da felicidade de descobrir-me
parte do universo.
Memórias que habitam em mim.
Do passado, novas expectativas:
Agora. Hoje. Agora.
Sem medo de mergulhar-se no caos:
não há vazio.
Falso vazio:
território múltiplo de potencialidades.
Goodbye Babylon.
Febre de sentir.
Caos em ebulição: inquietude.
Desassossego. Fernando Pessoa.
Criativo caos.
Criativo desassossego.
Potencialidade criadora.
Do caos: o verbo.
Desaceleração:
Ordem. Regularidade.
Órbita.
Sol.
Luz.
Vida.
Deus. Senti-lo.
Recriar-me me realiza.

Torna real existir.

domingo, 8 de maio de 2016

Por que as mentes mais brilhantes precisam de solidão - SILVIA DÍEZ


Por que as mentes mais brilhantes precisam de solidão

Entrar em contato consigo traz benefícios. Darwin recusava todos os convites para festas. E do isolamento nasceu o primeiro computador Apple

Segundo o professor Robert Lang, da Universidade de Nevada (Las Vegas), especialista em dinâmicas sociais, muitos de nós acabarão vivendo sozinhos em algum momento, porque a cada dia nos casamos mais tarde, a taxa de divórcio aumenta, e as pessoas vivem mais. A prosperidade também incentiva esse estilo de vida, escolhido na maioria dos casos voluntariamente, pelo luxo que representa. A jornalista Maruja Torres, em sua autobiografia, Mujer en Guerra (da editora Planeta España, não publicada em português), já se vangloriava do prazer que lhe dava cair na cama e dormir sozinha, com pernas e braços em X. A isso se soma a comodidade de dispor do sofá, poder trocar de canal sem ter que negociar, improvisar planos sem avisar nem dar explicações, andar pela casa de qualquer jeito, comer a qualquer hora…

Como se fosse pouco, o sociólogo Eric Klinenberg, da Universidade de Nova York, autor do estudo GOING SOLO: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone (ficando só: o extraordinário aumento e surpreendente apelo de viver sozinho, em tradução livre), está convencido de que viver só significa, também, desfrutar de relações com mais qualidade, já que a maioria dos solteiros vê claramente que a solidão é muito melhor que se sentir mal-acompanhado. Há até estudos que asseguram que a solidão facilita o desenvolvimento da empatia. Outra socióloga, Erin Cornwell, da Universidade Cornell, em Ítaca (Nova York), concluiu, depois de diversas análises, que pessoas com mais de 35 anos que moram sozinhas têm maior probabilidade de sair com amigos que as que vivem como casais. O mesmo acontece com as pessoas adultas que, embora vivendo sozinhas, têm uma rede social de amizades tão grande ou maior que a das pessoas da mesma idade que vivem acompanhadas. É a conclusão do estudo feito pelo sociólogo Benjamin Cornwell publicado na American Sociological Review.
A base da criatividade e da inovação

As pessoas são seres sociais, mas depois de passar o dia rodeadas de gente, de reunião em reunião, atentas às redes sociais e ao celular, hiperativas e hiperconectadas, a solidão oferece um espaço de repouso capaz de curar. Uma das conclusões mais surpreendentes é que a solidão é fundamental para a criatividade, a inovação e a boa liderança. Estudo realizado em 1994 por Mihaly Csikszentmihalyi (o grande psicólogo da felicidade) comprovou que os adolescentes que não aguentam a solidão são incapazes de desenvolver seu talento criativo.

Susan Cain, autora do livro Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking (silêncio: o poder dos introvertidos num mundo que não consegue parar de falar), cuja conferência na plataforma de ideias TED Talks é uma das favoritas de Bill Gates, defende ao extremo a riqueza criativa que surge da solidão e pede, pelo bem de todos, que se pratique a introversão. “Sempre me disseram que eu deveria ser mais aberta, embora eu sentisse que ser introvertida não era algo ruim. Durante anos fui a bares lotados, muitos introvertidos fazem isso, o que representa uma perda de criatividade e de liderança que nossa sociedade não pode se permitir. Temos a crença de que toda criatividade e produtividade vem de um lugar particularmente sociável. Só que a solidão é o ingrediente essencial da criatividade. Darwin fazia longas caminhadas pelo bosque e recusava enfaticamente convites para festas. Steve Wozniak inventou o primeiro computador Apple sentado sozinho em um cubículo na Hewlett Packard, onde então trabalhava. Solidão é importante. Para algumas pessoas, inclusive, é o ar que respiram.”

Cain lembra que quando estão rodeadas de gente, as pessoas se limitam a seguir as crenças dos outros, para não romper a dinâmica do grupo. A solidão, por sua vez, significa se abrir ao pensamento próprio e original. Reclama que as sociedades ocidentais privilegiam a pessoa ativa à contemplativa. E pede: “Parem a loucura do trabalho constante em equipe. Vão ao deserto para ter suas próprias revelações”.

A conquista da liberdade

“Só quando estou sozinha me sinto totalmente livre. Reencontro-me comigo mesma e isso é agradável e reparador. É certo que, por inércia, quanto menos só se está, mais difícil é ficá-lo. Mesmo assim, em uma sociedade que obriga a ser enormemente dependente do que é externo, os espaços de solidão representam a única possibilidade se fazer contato novamente consigo. É um movimento de contração necessário para recuperar o equilíbrio”, diz Mireia Darder, autora do livro Nascidas para o Prazer (Ed. Rigden, não publicado em português).

Também o grande filósofo do momento, Byung-Chul Han, autor de A Sociedade do Cansaço (Ed. Relogio D’Agua, de Portugal), defende a necessidade de recuperar nossa capacidade contemplativa para compensar nossa hiperatividade destrutiva. Segundo esse autor, somente tolerando o tédio e o vácuo seremos capazes de desenvolver algo novo e de nos desintoxicarmos de um mundo cheio de estímulos e de sobrecarga informativa. Byung-Chul Han preza as palavras de Catão: “Esquecemos que ninguém está mais ativo do que quando não faz nada, nunca está menos sozinho do que quando está consigo mesmo”.

Autoconsciência e análise interior

“Para mim a solidão representa a oportunidade de revisar nosso gerenciamento, de projetar o futuro e avaliar a qualidade dos vínculos que construímos. É um espaço para executar uma auditoria existencial e perguntar o que é essencial para nós, além das exigências do ambiente social”, diz o filósofo Francesc Torralba, autor de A Arte de Ficar Só (Ed. Milenio) e diretor da cátedra Ethos da Universidade Ramon Llull. Na solidão deixamos esse espaço em branco para ouvir sem interferências o que sentimos e precisamos. “A solidão nos dá medo porque com ela caem todas as máscaras. Vivemos sempre mantendo as aparências, em busca de reconhecimento, mas raramente tiramos tempo para olhar para dentro”, diz Torralba.

Na verdade, a solidão desperta o medo porque costuma ser associada ao vazio e à tristeza, especialmente quando é postergada longamente por uma atividade frenética e anestesiante. Para Mireia Darder, é bom enfrentar esse momento tendo em mente que a tristeza resulta simplesmente do fato de se soltar depois de tanta tensão e de ter feito um esforço enorme para aparentar força e suportar a pressão frente aos que nos cercam. “Não se pode esquecer que para ser realmente independente é preciso aprender a passar pela solidão. O amor não é o contrário da solidão, e sim a solidão compartilhada”, diz Darder.


Em nossa sociedade, a inatividade —que surge com frequência da solidão— é temida e desperta a culpa. Fomos preparados para a ação e para fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas é quando estamos sozinhos que podemos refletir sobre o que fazemos e como o fazemos. O escritor Irvin Yalom, titular de Psiquiatria na Universidade de Stanford, confessava que desde que tinha consciência se sentia “assustado pelos espaços vazios” de seu eu interior. “E minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de outras pessoas. De fato detesto os que me privam da solidão e além disso não me fazem companhia.” Algo que, segundo Francesc Torralba, é muito frequente: “Embora estejamos cercados de gente e de formas de comunicação, há um alto grau de isolamento. Não existe sensação pior de solidão que aquela que se experimenta ao estar em casal ou com gente”.

AS 5 CHAVES PARA DESFRUTAR DA SOLIDÃO 

1. Você é sua melhor companhia. A premissa básica é mudar a crença de que quem está acompanhado está melhor.


2. Uma oportunidade para nos conhecermos melhor e descobrir nosso rico mundo interior.


3. Em vez de se torturar, é preciso aproveitar a solidão para ler, pintar ou praticar esporte.


4. Escrever um diário. Ajuda a expressar sentimentos e a contemplar-se com mais conhecimento e carinho.


5. Como indica o psicólogo Javier Urra, com a solidão recuperamos “o gosto pelo silêncio e pelo domínio do tempo”.


Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/29/ciencia/1422546931_773159.html

domingo, 10 de abril de 2016

Fluescência: As 4 Leis Espirituais Ensinadas na Índia.

Fluescência: As 4 Leis Espirituais Ensinadas na Índia.: 1. "A pessoa que vem é a pessoa certa." Significa que ninguém está em nossa vida por acaso. Todas as pessoas ao nosso red...

Os 10 ladrões de sua energia, segundo Dalai Lama

Tibetan spiritual leader the Dalai Lama greets his followers at the Buddhist cultural school in Salugara on the outskirts of Siliguri on March 28, 2013. The Dalai Lama expressed his sorrow for the self immolation protests going on in Tibet while speaking to journalists on his second day of a three day visit in Salugara, in the eastern Indian state of West Bengal after an inauguration ceremony of a 130 foot Lord Buddha statue at Buddha Park. AFP PHOTO/Diptendu DUTTA (Photo credit should read DIPTENDU DUTTA/AFP/Getty Images)


Todos nós temos designado uma carga de energia, a qual devemos aprender a utilizar corretamente e não desperdiça-la. As energias nos permitem trabalhar com motivação, nos dão pensamentos positivos para enfrentar as situações do dia a dia e permitem aproveitar ao máximo todas as oportunidades que nos são apresentadas. Somente nós temos o poder de dominar nossas energias e ter acesso a elas para usá-las em nossos dias. No entanto, existem alguns agentes externos e internos que podem chegar a interferir em nossos níveis de energia, provocando uma redução em nossa motivação, nosso humor e nossa produtividade.

As energias são chaves para alcançar o êxito e superar cada um dos obstáculos que nos são apresentados no caminho. Todos podem renovar todos os dias essas energias e aproveita-las ao máximo para vir a tona nossas qualidades, nossos talentos e tudo o que nos permite descartar como pessoas. Levando em consideração que cada individuo está dotado de energia, e que isto é a chave para seu desenvolvimento pessoal e profissional, o grande líder espiritual Dalai Lama definiu os “10 ladrões da energia” que todos devem conhecer para conseguir o domínio das energias e evitar que hajam interferências que nos impeçam de aproveita-las.

Pessoas negativas podem consumir sua energia

•“Deixe ir as pessoas que somente chegam para compartilhar queixas, problemas, histórias desastrosas, medo e julgamentos dos demais. Se alguém busca uma lixeira para deixar seu lixo, não deixe que seja a sua mente”.

Todos nós temos a capacidade de distinguir quais são as pessoas que trazem coisas positivas para nossa vida e quais são aquelas que querem nos deter e impedir nossa vida.

Pague suas contas a tempo

Não há nada melhor para nossa tranquilidade do que saber que não devemos nada a ninguém e que ninguém nos deve.

•“Pague suas contas a tempo. Ao mesmo tempo cobre a quem te deve ou escolha deixa-lo ir, se já for impossível cobrar”.

Ser responsável com as dívidas nos ajuda a ficar tranquilos ante as demais pessoas e com nós mesmos. É melhor fazer tudo o que for possível para se libertar das dívidas e não ter que se esconder ou ficar com vergonha por não tê-las pagado.

Cumpra suas promessas

•“Se não cumpriu suas promessas, se pergunte por que tem resistência. Sempre tem direito a mudar de opinião, a se desculpar, a compensar, a renegociar e a oferecer alternativa ante uma promessa não cumprida. Ainda não como de costume. A forma mais fácil de evitar o não cumprir com algo que não quer fazer, é dizer NÃO desde o princípio”.

As promessas por menores que sejam podem ter um valor muito significativo para as pessoas as quais fizemos a promessa. Cumprir com as promessas nos faz pessoas melhores tanto a nível pessoal como a nível profissional.

Delegue aquilo que não quer fazer

•“Elimine onde é possível e delegue aquelas tarefas que não prefere fazer e dedique seu tempo a fazer as coisas que gosta”.

Não se trata de escapar de nossas responsabilidades, mas sim de ter consciência de que em certos casos o melhor é passar o trabalho para alguém que pode fazê-lo melhor ou que pode tomar seu lugar quando não se sente nas melhores condições de realizá-lo. Isto nos lembra de que é importante realizar as coisas que são verdadeiramente significativas em nossas vidas.

Descansa e aja

•“Se dê permissão para descansar se estiver em um momento no qual necessita e se dê permissão para agir se estiver em um momento de oportunidade”.

Tanto a natureza como nossa vida possui diferentes ritmos no dia a dia e cada um de nós deve saber como agir ante isso. Muitas vezes não parar quando necessitamos pode ser um grande erro, e mesmo assim, não agir quando podemos, pode gerar futuros arrependimentos.

Coloque, recolha e organize

•“Tire, arrume e organize, nada te toma mais energia que um espaço desordenado e cheio de coisas do passado que já não precisa”.

Desde as coisas físicas até as espirituais, é muito importante botar aquilo que não precisamos para trás, deixar pra trás tudo o que seja passado e pegar somente aquelas coisas que nos permitem nos organizar para viver bem o presente e cumprir nossos Sonhos futuros.

Cuide de sua saúde

•“Dê prioridade a sua Saúde, sem a maquinaria de seu corpo trabalhando ao máximo, não pode fazer muito. Tire alguns momentos para descansar”.

De nada nos serve ter o melhor trabalho, muito dinheiro e os melhores bens, se não gozamos de boa saúde e não cuidamos de nosso corpo. Para desfrutar da vida com as melhores energias, devemos dedicar um merecido tempo a nosso corpo para desintoxica-lo, meditar, nos alimentar bem, fazer exercícios, consultar um médico e fazer todo o necessário para estar bem de saúde.

Enfrente as situações difíceis

•“Enfrente as situações tóxicas que está tolerando, desde resgatar um amigo ou um familiar, até tolerar ações negativas de um companheiro ou um grupo. Tome a ação necessária”.

Enfrentar as situações é a maneira mais saudável de assumir as coisas e não deixar que se convertam em algo pior. É importante analisar e decidir a tempo, já que postergar ou ignorar as coisas pode gerar Estresse, dificuldade para se focar e problemas mais difíceis de solucionar.

Aceita

•“Aceite. Não é resignação, mas nada te faz perder mais energia que resistir e brigar contra uma situação que não pode mudar”.

Ainda que muitos acreditem que nada é impossível e que a esperança é a última que morre, em certos casos, a vida nos põe ante situações nas quais devemos aceitar que não podemos mudar as coisas e que a única forma será aceitar. Aceitar não quer dizer que devamos parar de lutar, quando aceitamos que não podemos mudar algo, também temos a possibilidade de mudar o plano e buscar novas oportunidades.

Perdoa

•“Perdoe, deixe ir uma situação que esteja causando dor, sempre pode escolher deixar a dor ir embora”.

Uma das maiores fontes de energia é o Amor e estar conectado a Deus para aprender a perdoar. É verdade que muitas vezes a vida nos põe ante situações que nos enchem de ira, de Dor, de rancor e de medos, que dificilmente podemos superar. No entanto, quando decidimos não alimentar estes sentimentos e começar a perdoar, tudo em nossa vida melhora, e com o tempo nos damos conta que tomamos uma boa decisão. O ódio, o rancor e a ira são sentimentos que não nos trazem nada de bom e nos podem levar a tomar más decisões.


Fonte: http://www.revistapazes.com/ladroes-energia-dalai/

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O que tenho lido: Dias em Birmânia - George Orwell

John Flory não esconde sua impaciência para com a vida de madeireiro na Birmânia (atual Mianmar) dos anos 1920, quando o remoto país asiático era uma colônia britânica. No clube de brancos racistas e bêbados que freqüenta, Flory é considerado um bolchevique por ser amigo dos "negros", isto é, os nativos do lugar.
"Expressar-se livremente é impensável", diz Flory, sobre a miserável existência na colônia. "Você é livre para virar um bêbado, ocioso, covarde, maledicente, fornicador; mas não é livre para pensar por si mesmo." Apesar de não esconder sua estreita amizade com o médico local, um indiano honesto e dedicado, Flory demonstra relutância em defendê-lo abertamente, junto aos membros do clube europeu, contra as calúnias de U Po Kyin, magistrado nativo corrupto e ambicioso.
A chegada de Elizabeth, uma jovem inglesa casadoira, faz o calejado administrador enxergar sua única chance de construir uma vida digna e feliz. Mas o angustiado Flory, um dos mais complexos e apaixonantes personagens modelados pelo gênio de George Orwell, parece não ter o poder de mudar o rumo dos acontecimentos.

Trecho do livro:

U Po Kyin, magistrado subdivisional de Kyauktada, na Alta Birmânia, estava sentado em sua varanda. Eram só oito e meia da manhã, mas o mês era abril e havia uma opressão no ar, a ameaça das longas horas sufocantes do meio do dia. Fracos e ocasionais arquejos de vento, dando uma impressão de frescor por contraste, agitavam as orquídeas recém-regadas que pendiam do beiral. Para além das orquídeas podia-se ver o tronco empoeirado e curvo de uma palmeira, e em seguida o fulgor do céu de um azul ultramarino. No zênite, tão altos que ofuscava olhar para eles, alguns abutres descreviam círculos com as asas totalmente imóveis.
Sem mudar de expressão, lembrando um grande ídolo de porcelana, U Po Kyin contemplava o mundo imerso na feroz luz do sol. Era um homem de cinqüenta anos, tão gordo que fazia anos não conseguia se levantar da cadeira sem ajuda, porém ao mesmo tempo gracioso e até belo em sua corpulência; porque os birmaneses obesos não ficam flácidos e encalombados como os brancos, mas engordam simetricamente, por igual, como frutos inchados. Seu rosto era largo, amarelo e quase sem rugas, e seus olhos de um castanho muito claro. Seus pés - pés gordos e arqueados, com todos os dedos do mesmo comprimento - estavam descalços, assim como a cabeça raspada também estava descoberta, e ele usava um dos alegres longyis produzidos em Arakan, quadriculados de verde e magenta, que os birmaneses gostam de vestir em ocasiões informais. Mascava bétel, que guardava numa caixa laqueada em cima da mesa, e pensava em sua vida passada.
Tinha sido uma vida de sucesso notável. A memória mais remota de U Po Kyin, na década de 1880, era a de ter assistido de pé, ainda um menino nu e barrigudo, ao desfile dos soldados britânicos que entravam triunfalmente em Mandalay. Lembrou-se do terror que sentira diante daquelas colunas de homens imensos alimentados de carne bovina, com seus rostos corados e casacos vermelhos; e dos fuzis de cano longo que traziam presos ao ombro, e do trovejar pesado e rítmico de suas botas. Saíra correndo, depois de vê-los marchar por alguns minutos. A seu modo infantil, percebera que seu povo não tinha a menor condição de enfrentar aquela raça de gigantes. Alinhar-se do lado dos britânicos, transformar-se num parasita deles, constituiu sua maior ambição desde a infância.
Aos dezessete anos, tentou obter seu primeiro cargo no governo, mas fracassou, por ser pobre e não ter amigos, e nos três anos seguintes trabalhou no malcheiroso labirinto dos bazares de Mandalay, fazendo vendas para os mercadores de arroz e às vezes roubando-os. Aos vinte anos, um bem-sucedido golpe de chantagem lhe valeu quatrocentas rupias, com as quais foi imediatamente até Rangoon e comprou um cargo de pequeno funcionário no governo. O emprego era lucrativo, embora o salário fosse pequeno. Àquela altura, uma quadrilha de funcionários vinha auferindo uma renda regular mediante a desapropriação sistemática de bens públicos, e Po Kyin (na época apenas Po Kyin: o U honorífico só viria anos depois) aderiu naturalmente a esse tipo de operação. Entretanto, tinha talento demais para passar o resto da vida num cargo como aquele, contando miseravelmente seus roubos em moedas de pouco valor como annas e pice. Um dia, descobriu que o governo, diante da falta de quadros para cargos de importância intermediária, pretendia promover alguns pequenos funcionários como ele.A notícia iria se tornar pública dali a uma semana, mas uma das qualidade de Po Kyin era sempre conseguir as informações uma semana antes de todo mundo. Ele viu ali sua oportunidade, e denunciou todos os seus cúmplices antes que eles pudessem se precaver. A maioria foi mandada para a prisão, e Po Kyin acabou nomeado supervisor assistente municipal como recompensa por sua honestidade. Desde então, nunca mais deixou de subir. Agora, aos cinqüenta e seis anos, era magistrado subdivisional, e tudo indicava que seria promovido ainda mais e nomeado comissário assistente, tendo ingleses como seus iguais e até mesmo sob suas ordens.
Como magistrado, seus métodos eram simples. Mesmo pelo maior dos subornos, ele jamais vendia a decisão de um caso, pois sabia que um magistrado que emite julgamentos errados acaba sendo descoberto mais cedo ou mais tarde. Seu modo de agir, muito mais seguro, era aceitar suborno dos dois lados e, depois, resolver o caso estritamente de acordo com a lei. O que ainda lhe valia uma muito proveitosa reputação de imparcialidade. Além da renda que auferia junto aos litigantes, U Po Kyin extorquia um tributo permanente, uma espécie de taxação particular, de todas as aldeias submetidas à sua jurisdição. Se alguma aldeia deixava de pagar seus tributos, U Po Kyin adotava medidas punitivas - bandos de dacoits atacavam a aldeia, os moradores mais importantes eram presos com
base em falsas acusações, e assim por diante -, e não demorava muito a soma devida acabava sendo paga. Ele também recebia uma parte de todos os roubos de maior porte que ocorriam no distrito. Quase todo mundo, claro, sabia disso, menos os superiores de U Po
Kyin (nenhuma autoridade britânica jamais acreditaria numa acusação feita contra seus próprios homens), só que todas as tentativas de denunciá-lo sempre fracassavam; os homens que o apoiavam e cuja lealdade era alimentada por uma parte do butim eram numerosos demais.Toda vez que alguma acusação era feita contra ele, U Po Kyin se limitava a desacreditá-la lançando mão de uma série de testemunhas subornadas, disparando em seguida contra acusações que o deixavam numa posição mais forte do que nunca. Era praticamente invulnerável, tal sua eficiência em julgar o caráter alheio e assim jamais escolher um intermediário errado, e também porque se entregava à intriga com tanta concentração que jamais cometia um erro por descuido ou ignorância. Podia-se dizer,
quase com certeza, que ele nunca seria apanhado, que seguiria em frente, de sucesso em sucesso, e que por fim haveria de morrer coberto de honrarias, com uma fortuna de vários lakhs de rupias.
E mesmo no além-túmulo seu triunfo haveria de continuar. De acordo com a crença budista, os que praticam o mal na vida passam à encarnação seguinte na forma de um rato, um sapo ou algum outro animal inferior. U Po Kyin era um bom budista e estava decidido a se prevenir contra esse risco. Havia de dedicar seus últimos anos a boas causas, graças às quais acumularia mérito suficiente para sobrepujar o que ocorrera no restante de sua vida. É provável que suas boas obras tomassem a forma da construção de pagodes. Quatro pagodes, cinco, seis, sete - os monges lhe diriam quantos - com adornos de pedra esculpida, toldos de orla dourada e sinetas que tocavam ao vento, cada toque uma prece. E ele voltaria à terra em forma humana e masculina - pois a mulher tinha mais ou menos a mesma importância hierárquica de um rato ou um sapo - ou, na pior das hipóteses, na forma de algum animal
digno, como um elefante.
Todos esses pensamentos corriam rapidamente pelo espírito de U Po Kyin, e quase sempre em imagens. Seu cérebro, embora astucioso, era bastante bárbaro, e só funcionava para determinadas finalidades; a mera meditação estava além de seus hábitos. E agora ele chegava ao ponto para o qual vinham tendendo seus pensamentos. Apoiando as mãos pequenas e triangulares nos braços da cadeira, virou-se um pouco para trás e chamou, com uma voz roufenha:
"Ba Taik! Ei, Ba Taik!"
Ba Taik, criado de U Po Kyin, surgiu através da cortina de contas da varanda. Era um homem miúdo e coberto de marcas de varíola, com uma expressão tímida e faminta. U Po Kyin não lhe pagava salário, porque era um ladrão condenado que uma palavra bastaria
para devolver à prisão. À medida que avançava, Ba Taik fazia uma reverência tão profunda que dava a impressão de estar dando um passo para trás.
"Sagrado deus?", disse ele.
"Há alguém esperando para me ver, Ba Taik?"
Ba Taik enumerou os visitantes nos dedos: "O chefe da aldeia de Thitpingyi, Excelência, que lhe trouxe presentes, e mais dois aldeões envolvidos num caso de agressão que será julgado por Sua Excelência, e eles também lhe trouxeram presentes. Ko Ba Sein, o funcionário chefe do gabinete do vice-comissário, quer vê-lo, e também Ali Shah, o policial, e um dacoit cujo nome eu não sei. Acho que se desentenderam por causa de uns brincos de ouro roubados. E também uma jovem aldeã com um bebê."
"O que ela quer?", perguntou U Po Kyin.
"Está dizendo que o filho é seu, Santidade."
"Ah. E quanto trouxe o chefe da aldeia?"
Ba Taik achava que eram apenas dez rupias e uma cesta de mangas.
"Diga ao chefe", disse U Po Kyin, "que precisa me trazer vinte rupias, e que ele e a aldeia terão muitos problemas se o dinheiro não estiver aqui amanhã. E agora vou receber os outros. Peça a Ko Ba Sein que venha me ver aqui."
Ba Sein apareceu dali a instantes. Era um homem ereto, de ombros estreitos, muito alto para um birmanês, com o rosto curiosamente liso de uma cor e textura que lembravam um pudim de café. U Po Kyin o considerava um instrumento útil. Desprovido de imaginação,mas muito esforçado, era um funcionário excelente, e o sr. Macgregor, o vice-comissário, confiava-lhe a maioria de seus segredos oficiais. U Po Kyin, que seus pensamentos anteriores haviam deixado de bom humor, cumprimentou Ba Sein rindo e indicou a caixa de bétel com um aceno.
"E então, Ko Ba Sein, como está caminhando o nosso negócio? Espero que, como diria o senhor Macgregor"- e U Po Kyin passou a falar em inglês -, "esteja fazendo progressos perceptíveis."
Ba Sein não riu do gracejo. Sentando-se muito ereto e com as costas bem alongadas na cadeira vazia, respondeu:
"Está excelente, senhor. O nosso exemplar do jornal chegou hoje de manhã. Tenha a bondade de ler."
Exibiu um exemplar do jornal bilíngüe chamado O Patriota Birmanês. Era um pobre jornaleco de oito páginas, horrivelmente impresso num papel que era quase um mata-borrão, consistindo em parte em notícias roubadas da Gazeta de Rangoon, em parte em textos fracos sobre o culto ao heroísmo nacionalista. Na última página, os tipos tinham escorregado e deixado o papel todo coberto de preto, como que de luto pela exigüidade da tiragem do jornal. O artigo ao qual U Po Kyin dedicou atenção tinha um cunho bem diferente do resto. E dizia:

Nestes tempos felizes em que nós, os pobres negros, vimos sendo beneficiados pela poderosa civilização ocidental, com suas inúmeras bênçãos, tais como o cinematógrafo, as metralhadoras, a sífilis etc., que tema poderia ser mais inspirador do que a vida particular dos nossos benfeitores europeus? Pensamos, assim, que pode interessar aos nossos leitores saber um pouco acerca do que vem acontecendo no distrito de Kyauktada, no norte do país. E especialmente acerca do sr. Macgregor, honrado vice-comissário do citado distrito.
O sr. Macgregor é o protótipo do Perfeito Cavalheiro Inglês, de que, nestes tempos felizes, temos tantos bons exemplos diante dos olhos. É um "homem de família", como dizem nossos queridos primos ingleses. De fato, um homem de muito zelo para com a família, o sr. Macgregor. Tanto que já acumula três filhos no distrito de Kyauktada, onde vive há apenas um ano, e no seu distrito anterior, de Shwemyo, deixou para trás seis jovens
descendentes. Talvez seja uma certa ligeireza da parte do sr. Macgregor ter deixado essas jovens criaturas sem nenhum amparo, e algumas das mães correndo o risco de passar fome etc. etc. etc.

Havia mais uma coluna de matérias semelhantes, e por mais terríveis que fossem, ainda assim ficavam num nível bem superior ao do restante do jornal. U Po Kyin leu com atenção o artigo de ponta a ponta, segurando-o com o braço esticado - tinha a vista cansada
- e franzindo pensativamente os lábios, o que revelava uma incrível quantidade de dentes pequenos e perfeitos, tintos de vermelho-sangue devido ao suco do bétel.
"O editor será condenado a seis meses de prisão por causa disto", disse por fim.
"Ele não se importa. Diz que só na prisão consegue ser deixado em paz pelos credores."
"E você me contou que foi o seu aprendiz Hla Pe quem escreveu este artigo sozinho? O rapaz é muito esperto - muito promissor! Nunca mais torne a me dizer que essas Escolas Secundárias do Governo são uma perda de tempo. Hla Pe certamente deve ser promovido a funcionário titular."
"O senhor então acha que o artigo vai bastar?"
U Po Kyin não respondeu de imediato. Começara a emitir um som de sopro laborioso; tentava levantar-se da cadeira. Era um som que Ba Taik conhecia bem. Ele apareceu por trás da cortina de contas, e ele e Ba Sein puseram uma das mãos debaixo de cada axila de U Po Kyin e o ajudaram a se erguer.U Po Kyin ficou algum tempo equilibrando o peso da barriga nas pernas, fazendo os movimentos de um carregador de peixes que endireita sua carga. Em seguida, dispensou Ba Taik com um gesto.
"Não, não basta", disse ele, respondendo à pergunta de Ba Sein, "de maneira nenhuma. Ainda precisamos fazer muito mais. Mas foi o começo certo. Escute."
Foi até a balaustrada cuspir restos escarlates de bétel, depois começou a percorrer a varanda com passos curtos, as mãos atrás das costas. A fricção de suas vastas coxas o fazia oscilar ligeiramente. À medida que caminhava, ia falando, no jargão básico dos funcionários públicos - uma colcha de retalhos que reunia verbos birmaneses com expressões abstratas inglesas:
"Bom, agora vamos cuidar desse caso desde o início. Vamos fazer um ataque combinado ao doutor Veraswami, que é o médico civil e superintendente da prisão. Vamos caluniá-lo, destruir sua reputação e, no final, deixá-lo desgraçado para sempre. Vai ser uma operação delicada."
"Sim, senhor."
"Não vamos correr nenhum risco, precisamos fazer as coisas devagar. Quem vai estar na nossa mira não é um funcionário comum, ou um mero policial. É um alto funcionário, e com um alto funcionário, mesmo que seja indiano, não agimos da mesma forma que com um escrevente qualquer. Para arruinar um escrevente, como se faz? É fácil; uma acusação, duas dúzias de testemunhas, demissão e cadeia. Mas nesse caso não adianta. De mansinho, de mansinho, de mansinho é o jeito certo. Nada de escândalo e, acima de tudo, nada de inquérito oficial. Não pode haver nenhuma acusação passível de resposta, mas ainda assim, dentro de três meses, quero fixar na cabeça de todos os europeus de Kyauktada que o nosso médico não presta. Do que será que eu posso acusá-lo? De suborno
não pode ser, nenhum médico tem a oportunidade de receber suborno. Do quê, então?"
"Podíamos talvez organizar uma rebelião na cadeia", disse Ba Sein. "Na qualidade de superintendente, o doutor podia levar a culpa."
"Não, é perigoso demais. Não quero os guardas da cadeia dando tiros de fuzil para todo lado. Além disso, iria custar muito caro. Então, é óbvio que a acusação só pode ser uma: deslealdade - nacionalismo, propaganda sediciosa. Precisamos convencer os europeus de que o doutor tem opiniões desleais e antibritânicas. É muito pior do que suborno; para eles, é até natural que um funcionário nativo aceite suborno. Mas, se eles suspeitarem da lealdade dele por um momento que seja, o homem está perdido."
"É coisa difícil de provar", objetou Ba Sein. "O médico é muito leal aos europeus. Fica irritado quando dizem alguma coisa contra eles. E eles devem saber disso, o senhor não acha?"
"Bobagem, bobagem", disse U Po Kyin,muito seguro."Os europeus dão pouca importância às provas. Quando um homem tem a cara preta, a menor suspeita já basta. Algumas cartas anônimas produzem milagres. É só uma questão de persistência. Acusar, acusar, e continuar acusando - é assim que a coisa funciona com os europeus. Uma carta anônima atrás da outra, endereçada a um europeu depois do outro. E então, quando as suspeitas estiverem despertadas..."
U Po Kyin tirou um dos braços de trás das costas e estalou os dedos. Depois acrescentou: "Começamos com este artigo no Patriota Birmanês. Os europeus vão ficar furiosos quando lerem. E então o próximo movimento será convencê-los de que foi escrito pelo médico". "Vai ser difícil enquanto ele tiver amigos europeus. É ele que todos procuram quando ficam doentes. Ele curou o senhor Macgregor da flatulência quando o tempo ficou mais frio. É considerado um médico muito habilidoso, acho."
"Como você entende pouco da mentalidade européia, Ko Ba Sein! Se os europeus procuram o doutor Veraswami, é só porque não existe outro médico em Kyauktada. Nenhum europeu confia num homem de cara preta. Não, com as cartas anônimas é só uma questão de mandar o número certo delas. Vou cuidar para que daqui a pouco ele não tenha mais nenhum amigo."
"Mas tem o senhor Flory, o comerciante de madeira", disse Ba Sein (da maneira como pronunciava, o nome parecia "Porley".) "Ele é amigo íntimo do doutor. Todo dia de manhã, quando está em Kyauktada, vai à casa dele. E duas vezes até convidou o médico para jantar na casa dele."
"Ah, nisso você está certo. Se Flory continuar amigo do doutor, isso poderá nos prejudicar. Não é possível atacar um indiano que tenha um amigo europeu. A amizade com um branco lhe dá - como é mesmo a palavra de que eles gostam tanto? - prestígio. Mas eu sei que Flory há de abandonar o amigo na mesma hora, assim que os problemas começarem. Essas pessoas não têm o menor sentimento de lealdade para com os nativos. Além disso, por acaso eu sei que Flory é um covarde. Com ele eu posso lidar. A sua parte, Ko Ba Sein, é vigiar os movimentos de Macgregor. Ele tem escrito para o comissário ultimamente - serão cartas confidenciais?"
"Escreveu há dois dias, mas quando abrimos a carta com vapor vimos que não continha nada de importante."
"Pois bem, então vamos lhe dar assunto. E assim que ele começar a suspeitar do médico, vai ser a hora de começarmos a tratar daquele outro caso de que eu lhe falei. E assim nós vamos - como é mesmo que diz o senhor Macgregor? Ah, sim, 'matar dois coelhos com uma só cajadada'. Várias dúzias de coelhos - ha, ha!"
[...]

Fonte: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12218

sábado, 29 de outubro de 2011

Pq o sapo não lava o pé?

Olavo de Carvalho - O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o mundo, um tipo de atitude oriunda de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!

Marx - A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Engels - Isso mesmo.

Foucault - Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé - bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas - domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível - é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Weber - A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lavasse o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo - a vida na lagoa.

Nietzsche - Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida - e difícil - fronteira entre o sapo e aquele que está por vir, o "além-do-sapo": a lavagem do pé.

Filmer - Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.

Locke - Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

Kant - O sapo age moralmente, pois ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Freud - Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.
NOTA - Kant jamais lavou seus pés.

Jung - O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Kierkegaard - O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.

Hegel - Podemos observar na lavagem do pé a manifestação da dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo - em relação à higiene - para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.

Comte - O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Schopenhauer - O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de "coisa-em-si", e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: O mundo como vontade e representação.

Aristóteles - [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte. Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Platão -
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco dialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem; e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e assim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam. Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendo ele necessidade de duas vidas por natureza, ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos e nas poças, vistos que são animais, pertencem a uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: Precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria o sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: Não, não, não, mil vezes não, ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé por outro motivo, que não a repulsa à água.
Górgias: De acordo.

Diógenes, o cínico - Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.

Parmênides de Eléia - Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?

Heráclito de Éfeso - Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.

Epicuro - O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.
Estóicos - O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes - Nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a auto-conservação, como um relógio precisa de corda.

Maquiavel - A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau - Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.

Horkheimer e Adorno - A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.

Gramsci - O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições - representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis - serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.

Bobbio - Existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

O sapo e a verdade - Tecnociência

Segundo palavras do filósofo alemão Arthur Schopenhauer, toda a verdade passa por três fases: primeiro é ridicularizada; depois violentamente atacada; por fim, é aceite como evidente [1]. Diz o provérbio que quem ri por último ri melhor, mas nem sempre os detentores da verdade têm sequer tempo de rir, quanto mais de rir melhor! Pense-se no famoso cientista Galileu, por exemplo. A história veio a dar-lhe razão. A sua teoria de movimento dos planetas não era nada intuitiva para o conhecimento da época, que sustentava que a Terra era o centro do Universo e todos os restantes astros giravam à volta dela. Além disso, a interpretação das escrituras sagradas indicava precisamente isso. Galileu descobriu que modelar o Sol como o centro e a Terra a girar à volta dele seria muito mais fácil e coerente com o que realmente acontece. Esta é a verdade actualmente aceite, uma verdade “mais do que evidente”. No entanto, a contas com a Inquisição Galileu teve a vida em risco. Negou a sua própria verdade e escapou à morte, mas acabou por viver os seus últimos dias em prisão domiciliária – ciência, a quanto obrigas!

Mas nem sequer é preciso fixar os olhos nos tempos de Galileu Galilei para encontrar exemplos das três fases da verdade. Quanto a isso, a Humanidade será incorrigível, se de um defeito se trata.

Durante muitos séculos pensou-se que os barcos não poderiam ser de metal. O metal é mais pesado do que a água, não flutua. Logo, não seria possível construir um barco de metal. Por isso, durante muito tempo, mesmo os grandes navios eram construídos de madeira. Mesmo os navios de guerra que tinham partes metálicas como forma de protecção ou ataque tinham a estrutura em madeira, que era o material mais abundante, resistente e barato com as características que se pretendiam para um barco na altura. Instrumentos metálicos existem há muitos séculos, basta pensar em espadas, escudos e lanças. Mas pensar em construir um barco em metal era ridículo, não era evidente que se afundava? No entanto, alguém um dia demonstrou o contrário. O importante não é o peso do corpo, mas o volume de água que desloca. Portanto, não importa apenas o material usado, mas também o volume do objecto. Assim, a construção de barcos metálicos passou a ser uma verdade mais do que aceitável, evidente.

Muito próximo do exemplo do barco de metal é o do avião. Durante muitos anos acreditava-se não ser possível que um objecto mais pesado do que o ar voasse. Bem, os pássaros voavam e são mais pesados do que o ar, mas isso permanecia um mistério não muito bem compreendido. Mais uma vez a ciência resolveu o mistério. Bastou compreender que a diferença de pressão acima e abaixo de um objecto poderem ser suficientes para a sua sustentabilidade – é uma questão de forma e velocidade. Afinal, pode haver ainda muita gente com medo de voar, mas pelo menos já ninguém se espanta que um avião voe sem cair. Muito embora de permeio não tenham sido poucos os cientistas “loucos”, desde o próprio Ícaro que, segundo a mitologia grega, perdeu a vida a voar com asas de cera e penas muito perto do sol.

Seja como for, as três fases da verdade aplicam-se ainda hoje e em vários campos, nem só na ciência. Veja-se na política, por exemplo, onde são o pão nosso de cada dia as verdades que são primeiro ridicularizadas, depois violentamente atacadas, e por fim consideradas evidentes, se não morrerem entretanto.

Mas talvez seja até melhor assim, que a verdade surja em três fases. Para além de ser uma coisa que parece característica da nossa natureza humana, talvez seja mais fácil por ser mais progressivo. Uma experiência muito pouco ética mas que ilustra claramente o fenómeno é a do sapo na panela. Se se colocar um sapo numa panela quente o bicho salta de imediato. Mas se se colocar numa panela fria e se aumentar a temperatura gradualmente, consta que o sapo muito provavelmente se vai deixar ficar quieto até eventualmente morrer. Uma variação brusca da temperatura fá-lo reagir. Mas uma variação gradual nem sequer é percebida, ou se é percebida, pelo menos não é interpretada como potencialmente perigosa. A verdade, ao surgir em três fases, é também muito mais fácil de ser digerida e aceite. Assim como qualquer inovação ou mudança: se for brusca é muito mais susceptível de sofrer oposição e resistência. Mas se for progressiva, ninguém dá por ela ou, mesmo que a perceba, lhe liga importância.

[1] http://www.quotationspage.com/quote/25832.html

Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://tecnociencia.etikweb.com/Article-39-O+Sapo+e+a+verdade.html

domingo, 2 de outubro de 2011

Menino Jesus - Alberto Caeiro

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?


Alberto Caeiro

Não há Felicidade sem Verdadeira Vida Interior - Schopenhauer

A vida intelectual ocupará, de preferência, o homem dotado de capacida­des espirituais, e adquire, mediante o incremento inin­terrupto da visão e do conhecimento, uma coesão, uma intensificação, uma totalidade e uma plenitude cada vez mais pronunciadas, como uma obra de arte amadurecen­do aos poucos. Em contrapartida, a vida prática dos ou­tros, orientada apenas para o bem-estar pessoal, capaz de incremento apenas em extensão, não em profundeza, contrasta em tristeza, valendo-lhes como fim em si mesmo, enquanto para o homem de capacida­des espirituais é apenas um meio. 

A nossa vida prática, real, quando as paixões não a movimentam, é tediosa e sem sabor; mas quando a movi­mentam, logo se torna dolorosa. Por isso, os únicos feli­zes são aqueles aos quais coube um excesso de intelec­to que ultrapassa a medida exigida para o serviço da sua vontade. Pois, assim, eles ainda levam, ao lado da vida real, uma intelectual, que os ocupa e entretém ininter­ruptamente de maneira indolor e, no entanto, vivaz. Pa­ra tanto, o mero ócio, isto é, o intelecto não ocupado com o serviço da vontade, não é suficiente; é necessário um excedente real de força, pois apenas este capacita a uma ocupação puramente espiritual, não subordinada ao ser­viço da vontade. Pelo contrário, o ócio destituído de ocupação intelectual é, para o homem, morte e sepultura em vida (Séneca).

Ora, conforme esse excedente seja pe­queno ou grande, haverá inúmeras gradações daquela vida intelectual levada ao lado da real, desde o mero tra­balho de colecionar e descrever insectos, pássaros, mine­rais, moedas, até as mais elevadas realizações da poesia e da filosofia. Tal vida intelectual protege não só contra o tédio, mas também contra as suas consequências pernicio­sas. Ela é um escudo contra a má companhia e contra os muitos perigos, infortúnios, perdas e dissipações em que se tropeça quando se procura a própria felicidade apenas no mundo real. Para mim, por exemplo, a minha filoso­fia nunca rendeu nada, mas poupou-me de muita coisa. 

O homem normal, pelo contrário, em relação aos de­leites de sua vida, restringe-se às coisas exteriores, à pos­se, à posição, à esposa e aos filhos, aos amigos, à socie­dade, etc. Sobre estes se baseia a sua felicidade de vida, que desmorona quando os perde ou por eles se vê iludi­do. Podemos expressar essa relação dizendo que o seu centro gravitacional é exterior a ele. Justamente por isso, tem sempre desejos e caprichos cambiantes. Se os seus meios lhe permitirem, ora comprará casas de campo ou cava­los, ora dará festas ou fará viagens, mas, sobretudo, os­tentará grande luxo, justamente porque procura nas coi­sas de todo o tipo uma satisfação provenientedo exterior. Como o homem debilitado que, por meio deconsom­més, canjas e drogas farmacêuticas, espera obter saúde e robustez, cuja verdadeira fonte é a própria força de vida. Para não passarmos desde já ao outro extremo, coloque­mos ao seu lado uma pessoa dotada de capacidades es­pirituais não exactamente eminentes, mas que ultrapas­sem a escassa medida comum. Veremos tal pessoa prati­car como diletante uma bela arte, ou uma ciência como a botânica, a mineralogia, a física, a astronomia, a história e semelhantes, e nelas encontrar de imediato uma grande parte do seu deleite, nelas se reabastecendo quando es­tancam aquelas fontes exteriores ou quando não mais a satisfazem­.

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Esperar?

Esperança, esperar, espera, esperado. Desesperança, desesperar, desespera, desesperado. Pobre daquele que tem esperança, se espera o que não vê, é pela paciência que se espera. Pobre de mim que tenho a paciência infindável!

domingo, 4 de setembro de 2011

Demônio - Freud

"O demónio do homem é o que nele há de melhor, é o próprio homem. Não se deve empreender coisa alguma de que se não goste realmente." Sigmund Freud

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

5 dicas para uma aula melhor - Brasílio Neto

1 - Incite, não informe

Uma boa aula não termina em silêncio ou com os alunos olhando para o relógio. Ela termina com ação concreta. Antes de preparar cada aula, pergunte-se:, o que você quer que seus alunos aprendam e façam e como você os convence disso?

Olhe em volta, descubra o que pessoas nas mais diferentes profissões, fazem para conseguir a atenção dos outros. Por exemplo, ao fazer um resumo de uma matéria, não coloque um "título"; imagine-se um repórter e coloque uma manchete. Como aquela matéria seria colocada em um jornal ou revista? Use o espírito das manchetes, não seja literal, nem tente ser um professor do tipo:

2 - Conheça o ambiente

Você nunca vai conseguir a atenção de uma sala sem a conhecer. Onde moram os alunos e como eles vivem - quem vem de um bairro humilde de periferia não tem nada a ver com um morador de condomínio fechado, apesar de, geograficamente, serem vizinhos. Quais informações eles tiveram em classes anteriores, quais seus interesses. Mesmo nas primeiras séries, cada pessoa têm suas preferências e o grupo assume determinada personalidade.

3 - No final das contas (e no começo também)

As partes mais importantes de uma aula são os primeiros 30 e os últimos 15 segundos. Todo o resto, infelizmente, pode ser esquecido se você cometer um erro nesses momentos.

Os primeiros 30 segundos (principalmente das primeiras aulas do ano ou semestre) são um festival de conceituação e de cálculo dos discentes. Mesmo inconscientemente, eles respondem às seguintes questões:

- Quem é esse professor? Qual seu estilo?

- O que posso esperar dessa aula hoje e durante todo o ano?

- Quanto da minha atenção eu vou dedicar?

E isso, muitas vezes, sem que você tenha aberto a boca.

4 - Simplifique

Você certamente já presenciou esse fenômeno em algumas palestras: elas acabam meia hora antes do final. Ou seja, o apresentador fala o que tinha que falar e passa o resto do tempo enrolando. Ou então, pior, gasta metade da apresentação com piadas, truques de mágica, histórias pessoais que levam às lágrimas, "compre meu livro" e aparentados, e o assunto, em si, é só apresentado no final - se isso.

Por isso, uma das regras de ouro de uma boa aula é - simplifique, tanto na linguagem como na escrita. Caso real: reunião de condomínio na praia, uma senhora reclamava que sua TV não funcionava direito. Explicaram-lhe que era necessário sintonizar em UHF. Ela então perguntou para quê a diferença entre UHF e VHF. Um vizinho prestativo passou a discorrer sobre diferenças na recepção, como uma transmissão poderia interferir na outra, nas características geográficas... Ela continuava com aquela cara de quem não entendia nada. Até que um garoto resumiu a questão em cinco letras:

"AM e FM."

"Ahhh, entendi."

Escrever e falar da maneira mais simples possível não significa suavizar a matéria ou deixar de mencionar conceitos potencialmente "espinhosos". Use e abuse de exemplos e analogias. Divida a informação em blocos curtos, para que seja melhor assimilada.

5 - Ponha emoção!

Certo, você tem PhD naquela área, pesquisou o assunto por meses a fio, foi convidado para dar aulas em faculdades européias. Mesmo assim, seus alunos podem não prestar atenção em você. Segundo estudos, o impacto de uma aula é feito de:

- 55% estímulos visuais - como você se parece, anda e gesticula;

- 38% estímulos vocais - como você fala, sua entonação e timbre;

- e apenas 7% de conteúdo verbal - o assunto sobre o qual você fala.

Apoiar-se somente na matéria é uma forma garantida de falar para a parede, já que grande parte dos alunos estará prestando atenção em outra coisa. Treine seus gestos, conte histórias, movimente-se com naturalidade. Passe sua mensagem de forma interessante.

Para o bem e para o mal, você dá aula para a geração videoclipe. Pessoas que foram criadas em frente aos mais criativos comerciais, onde videogames mostram realidades fantásticas. Entretanto, a tecnologia deve ser encarada como aliada, e não inimiga - apresentações multimídia, aparelhos de som, videocassetes - tudo isso pode ser usado como apoio à sua aula.

Fonte: http://www.profissaomestre.com.br/php/verMateria.php?cod=1063