terça-feira, 5 de julho de 2011

Físicos foram os mais politizados no regime militar


Ciência ambígua na ditadura

O historiador americano John Heilbron afirmou certa vez que é impossível estabelecer uma relação entre regimes políticos e desenvolvimento científico. Ou seja, maiores investimentos na área não têm relação direta com democracia plena e vice-versa.

As considerações de Heilbron fazem sentido se aplicadas ao período da Ditadura Militar no Brasil (1964-1985), quando a relação entre governo e cientistas foi bastante ambígua.

Houve muitos investimentos, principalmente a partir de 1968 – ano marcado pela instituição do AI-5, que fortaleceu a linha-dura do regime militar –, mas também perseguições a cientistas, aposentadorias compulsórias e exílios.

“Mesmo com os investimentos em ciência e tecnologia, muitos grupos faziam oposição ao regime”, explica o sociólogo da ciência Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), em entrevista à Revista História da Biblioteca Nacional. “Entre eles, os físicos eram os mais politizados.”

Pode parecer estranho pensar que uma área tão técnica da ciência tenha sido a oposição mais pujante. “O cientista tem consciência da importância de seu papel social, e isso faz com que ele queira discutir políticas públicas e se envolver em questões políticas e sociais”, comenta o sociólogo.

Na linha de Schwartzman está o físico Olival Freire Júnior, em seu artigo publicado no livro Os 60 anos do CBPF e a Gênese do CNPq. Nele, Freire Júnior conta que, por sua oposição politizada contra o regime, muitos nomes importantes da física alinhados a idéias de esquerda foram perseguidos e tiveram que sair de suas universidades e institutos de pesquisa.

O exemplo mais dramático foi o fim do departamento de física da Universidade de Brasília, em 1965. Após perseguições de nomes como José Leite Lopes e Roberto Salmeron, entre outros, mais de 230 membros pediram demissão. Mas também o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, foi alvo de medidas parecidas, gerando uma troca de cartas e declarações entre a Sociedade Brasileira de Física (SBF) e o CBPF sobre a gravidade da situação.

A posição dos cientistas frente ao regime, no entanto, não foi sempre tão clara. Apesar da intolerância política em relação a muitos pesquisadores, houve situações em que físicos e governo estiveram lado a lado. “Nessas circunstâncias, mesmo em condições políticas excepcionais, muitos dos líderes da física no Brasil atuaram junto ao Estado, interferindo no desenvolvimento da física brasileira”, escreve Freire Júnior.

As áreas que mais receberam investimentos à época foram a informática – com participação direta da Marinha -, a engenharia aeroespacial, nuclear e a agricultura, com o fortalecimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Na física, os recursos totais destinados à área duplicaram entre 1967 e 1968, e a participação direta do governo federal por meio do BNDE triplicou, segundo a historiadora Vanya Sant’Anna.

Força da SBPC

Além da física e áreas mais tecnológicas, também as ciências sociais passaram por um período de sedimentação durante o regime militar. Apesar dos problemas com o governo nos primeiros anos da Ditadura, a sociologia, antropologia e ciência política conseguiram se sedimentar por meio da institucionalização da pós-graduação – o que, assim como no caso da física, não significou um apoio automático ao regime.

Entre as muitas associações e sociedades da ciência brasileira, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) – assim como a SBF - foi uma das mais destacadas como oposição ao regime militar, uma vez que reunia grupos das mais diversas áreas. “A SBPC era um dos poucos lugares do país onde se podia discutir de tudo, desde a própria ciência até política”, explica Schwartzman.

Em sua sede no Rio de Janeiro, aconteciam debates polêmicos que eram bastante repercutidas na imprensa. No entanto, o governo militar, segundo o sociólogo, nunca fez nenhum movimento agressivo diretamente contra a SBPC. “Acredito que o governo temia interferir e criar rusgas com cientistas importantes”, defende.

De fato, alguns nomes perseguidos e exilados nos anos 1960 foram trazidos de volta ao Brasil em projetos do governo na década de 1970. Schwartzman explica essa convergência entre atores opostos pelas idéias compartilhadas de nacionalismo e crença nos poderes da ciência e tecnologia. Essas ideias em comum, no entanto, de forma alguma apontam uma coexistência pacífica entre cientistas de esquerda e governo militar – muito pelo contrário.

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