quinta-feira, 5 de maio de 2011

Peixada - Brecht e Bruegel

Fiz esses dias um treinamento de teatralidade na mediação museal com a artista plástica e arte-educadora Mirele Brant, lemos esse texto e analisamos essa imagem, achei muito bacana a intertextualidade.

Os peixes grandes comem os peixes pequenos - Bruegel



Se os Tubarões Fossem Homens
Bertold Brecht


Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos.

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar,

para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais,

quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada

e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho

ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não

moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles

dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os

tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos

aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo

a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente

por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam

ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um

peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando

esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos

que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo

os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista,

egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles

manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de

conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas

pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos

e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os

peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas,

sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra

matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado

com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.


Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte,

haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas

cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio,

nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam

como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra

na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos

pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.


Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos

tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem

homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles

obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho

maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões,

pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar.

E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos

para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de

caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar,

se os tubarões fossem homens.

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