O pensamento epistemológico do médico Ludwik Fleck, autor que influenciou pensadores como Thomas Kuhn e Bruno Latour, ganha visibilidade no Brasil com a tradução de sua obra e a constituição de uma rede acadêmica para estudar seu legado.
Por: Desireé Antônio
Por: Desireé Antônio
Publicado em 15/11/2010 | Atualizado em 05/04/2011

O médico Ludwik Fleck no laboratório: a contribuição do pensador polonês para a história e a filosofia da ciência foi tema de colóquio em Belo Horizonte (foto: Ludwik Fleck Zentrum).
O médico Ludwik Fleck no laboratório: a contribuição do pensador polonês para a história e a filosofia da ciência foi tema de colóquio em Belo Horizonte (foto: Ludwik Fleck Zentrum).
O polonês Ludwik Fleck (1896-1961) não foi sociólogo, historiador ou filósofo – era médico. A despeito disso, seu pensamento influenciou intelectuais de todas essas áreas, dentre eles, nomes de peso como o físico e historiador das ciências norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996) e o filósofo e antropólogo francês Bruno Latour (1947-).
Kuhn reconhece que o ensaio Gênese e desenvolvimento de um fato científico, escrito por Fleck em 1935, antecipa muitas de suas próprias ideias, como conta no prefácio deA estrutura das revoluções científicas, um dos livros mais influentes dos estudos de história e filosofia da ciência. A menção de Kuhn a Fleck fez com que o nome do polonês ganhasse projeção e despertasse o interesse de pesquisadores nos Estados Unidos e no resto do mundo.
Agora, leitores brasileiros poderão ter acesso às ideias do médico com o lançamento da tradução em português da obra. A edição foi lançada durante o Colóquio de História e Filosofia da Ciência: Ludwik Fleck, evento promovido em setembro pelo grupo de teoria e história da ciência e da técnica Scientia & Technica, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Na obra, lançada originalmente na Suíça, Fleck discute como se dá a produção do conhecimento e como são formados os fatos científicos. Para o pensador polonês, eventos da esfera da ciência como o surgimento de uma nova doença ou de uma bactéria não são realidades dadas e prontas para serem descobertas, mas construções de uma comunidade específica, que compartilha uma certa forma de pensar e perceber os fenômenos que investiga.
“O pensamento de Fleck é tão rico porque ele tinha uma forma muito própria de filosofar; era um cientista tentando compreender o que estava fazendo”, diz o linguista Johannes Ferh, diretor do Ludwik Fleck Zentrum, em Zurique, na Suíça, local onde se encontra o acervo do polonês. Os arquivos – em alemão – podem ser acessados pela página do centro.
Estilo de pensamento
O modo peculiar de Fleck de pensar e enxergar seu objeto de estudo é o que ele chama de “estilo de pensamento”. Já o grupo que se organiza em torno de um mesmo estilo – como uma equipe de cientistas que tenta compreender os mecanismos de evolução do vírus HIV, por exemplo – constitui um “coletivo de pensamento”.
Cada um desses profissionais participa também de muitos outros coletivos de pensamentos. Ao transitarem entre eles, eles promovem fluxos de ideias e conceitos e geram transformações mútuas desses estilos.
Fleck encarava a ciência como uma atividade coletiva, que implica debates e divergências e não é consensual
Gradativamente, esse movimento leva à alteração dos estilos de pensamento e, por conseguinte, da forma de se tratar um problema científico, como ocorreu com a passagem da física clássica newtoniana para a física moderna einsteiniana.
Os dois conceitos são centrais para entender a maneira pela qual Fleck encarava a ciência: uma atividade coletiva, que implica debates e divergências, não é consensual e apresenta respostas provisórias, sempre.
“Estilo de pensamento” e “coletivo de pensamento” são apenas algumas das expressões que Fleck cunhou para expressar suas ideias, inovadoras para a época. Para dar conta do desafio de vertê-las para o português, o tradutor Georg Otte, professor do curso de Letras da UFMG conta ter feito uma extensa pesquisa, para contrastar o texto do ensaio com os poucos artigos do médico sobre teoria da ciência.
Ludwik Fleck e colaboradores em foto tirada provavelmente durante o período em que o pesquisador passou em Lublin, no leste da Polônia, entre 1946 e 1952 (foto: / Ludwik Fleck Zentrum).
Novo fôlego
De acordo com Mauro Condé, organizador do colóquio e professor do Departamento de História da UFMG, o interesse pelo pensamento de Fleck tem ganhado novo fôlego na Europa e no Brasil nos últimos 20 anos.
“Professores que tiveram contato com a obra do médico através de outros autores foram orientando alunos, formando um grupo que utiliza seus conceitos em análises”, conta o historiador. A redescoberta de Fleck foi desencadeada pela publicação em 1979 da edição em inglês do livro que acaba de sair no Brasil.
Fleck via a sucessão de modelos teóricos hegemônicos como as mutações dos seres vivos
Condé acredita que a teoria do polonês seja mais adequada para pensar questões ligadas à atividade cientifica, com uma abordagem mais complexa.
“Uma das sofisticações que o pensamento de Fleck apresenta, em comparação ao de outros estudiosos, como Thomas Kuhn, por exemplo, é essa ideia de que não há uma ruptura radical entre dois modelos teóricos, mas sim uma continuidade com mudanças, como uma mutação em um ser vivo”, explica.
A fim de intensificar a relação entre os pesquisadores do cientista no país, durante o colóquio foi lançada a Rede Fleck Brasil, que reunirá acadêmicos de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. “O propósito é ampliar o nosso trabalho, trocando artigos, teses e estreitando o contato com outros interessados na obra do Fleck, inclusive na Europa”.
O historiador da ciência Mauro Condé (UFMG) fala da importância de se estudar a obra de Fleck hoje:
Uma questão vital
Fleck cresceu num ambiente multicultural: Lwów, a cidade em que nasceu, em 1896, tinha sua identidade formada pela fusão das culturas polonesa, austríaca e alemã, o que contribuiu para que ele conhecesse pensamentos de outras áreas, como a filosofia e a psicologia, especialmente a Escola da Gestalt, e os unisse ao analisar sua atividade. “Para Fleck, entender seu papel como cientista e como cidadão era uma questão de vida e não apenas profissional”, avalia o lingüista Johannes Ferh.
A microbiologia, talvez o principal interesse do pensador polonês, responde pela maior parte de sua produção bibliográfica – foram mais de 170 artigos, publicados em periódicos da área a partir de 1927. Já a produção sobre teoria da ciência, um número bem menor de escritos, está disponível na internet, em inglês.
Fleck publicou mais de 170 artigos na área de microbiologia a partir de 1927
Episódios da vida pessoal do médico também afetaram o andamento e o reconhecimento de sua obra: judeu, Fleck foi preso no gueto de sua cidade, em 1941 e, mais tarde, enviado, junto com sua mulher e seu filho para os campos de concentração de Auschwitz, na Polônia, e de Buchenwald, na Alemanha. Durante a prisão, foi obrigado a trabalhar no desenvolvimento de vacinas contra o tifo, doença que causava muitas mortes entre as tropas alemãs.
Libertado em 1945, com a saúde bastante debilitada, Fleck permanece na Europa até 1956, quando parte para Israel, onde morava seu filho desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com um câncer nos linfonodos diagnosticado em 1956, morre em 1961, devido a um infarto.
Gênese e desenvolvimento de um fato científico - Ludwik Fleck (tradução: Georg Otte e Mariana Camilo de Oliveira) Belo Horizonte, 2010, Fabrefactum - 205 páginas – R$ 40,00 Tel: (31) 2515 2277
Desireé Antônio
Especial para a CH On-line
Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/pchae/alo-professor/noticias/2010/11/fleck-redescoberto
Desireé Antônio
Especial para a CH On-line
Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/pchae/alo-professor/noticias/2010/11/fleck-redescoberto
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